quarta-feira, 15 de abril de 2009

AMOR É


Dora e Rufino foram colegas desde a instrução primária.
Viram a luz do dia separados por minutos e na mesma maternidade. As suas mães foram companheiras de quarto durante dois felizes dias e separaram-se com Até um dia e felicidades dito em uníssono.
Nunca mais se viram até um dia, 6 anos depois.
Aprenderam juntos, brincaram juntos e seguiram juntos até à idade adulta, convencidos de que na vida não havia coincidências, tinham nascido um para o outro, aprenderam um com o outro o abecedário do amor com inúmeras incursões às exclamações e interrogações, mas sempre sem hiatos nem reticências.
Eram felizes e essa felicidade era um bem adquirido por familiares e amigos que não viam outro desfecho, senão o casamento como corolário de uma vida a dois abençoada desde que nasceram
Na Universidade abraçaram imensas causas humanitárias; enquanto os amigos iam para a noite eles iam na noite, por becos e vielas, à procura de quem precisava do seu amor. Nem sempre eram bem acolhidos por aqueles a quem tudo faltava e, num desses acasos do infortúnio, Dora foi violada e Rufino obrigado a assistir.
Tal acontecimento ao invés de os apartar ainda os colou mais endemicamente, como numa segunda pele.
Dora fez rastreios e despistes, felizmente, não estava grávida.
No seu modo positivo pensaram Ainda bem, mas se estivesses seria filho dos dois.
Acabada a Universidade ambos ingressaram nas carreiras que tinham escolhido sem grandes escolhos: ambos médicos, especializaram-se, ele em psiquiatria, ela em pediatria.
Decorridos 8 anos de vida profissional, estabilizados economicamente, resolveram sair de casa dos pais e casar.
Pais e amigos receberam a notícia com a emoção própria que só o amor e amizade são capazes de vestir.
Estava decidido. Casariam, exactamente, seis meses depois daquele Dia dos Namorados em que tinham junto a família e amigos, afinal seus Valentins, para lhes dar a notícia.
Não havia tempo a perder, havia que escolher o local da boda, as vestes e acessórios, a lua-de-mel, mobilar o apartamento que tinham comprado a dois num dos bairros mais problemáticos da capital, para espanto de quem lhes queria bem e a quem tinham sempre ocultado este seu lado intervencionista, para os proteger.
À medida que o casamento se aproximava e a excitação tomava conta de todos, Dora ia emagrecendo, levando ao cúmulo do desespero o estilista sueco amigo do casal desde os tempos em que tinha vindo a Portugal em Erasmus.
- Tu vê se te acalmas, Dora. Estás com má cara, magra demais; por este andar o Rufino vai casar com uma sombra, dizia acompanhando o seu português que, quando nervoso se estilizava em sueco, com gestos efusivos e dramáticos.
Tens que ir ao médico. Ó Rufino, virava-se agora para o amigo como um catavento, vocês são médicos e só eu é que vejo que a rapariga está com mau ar?!!!
Só nessa altura Rufino tomou plena consciência de que Dora não era a mesma exteriormente e Dora, tal como Rufino, só com aquele puxão de orelhas se deu conta que, de facto, aquelas tonturas e enjoos que tem tido e aos quais não tinha dado importância - talvez por deformação profissional ou então porque, inconscientemente os atribuiu aos stresses próprios do período que vivia - configurassem algo de mais grave. Tinha, certamente, que ir saber o que se passava com ela.
De noite, na cama, entre voltas e mais voltas, começou a passar a sua vida em revista e sobressaltou-se: Não, não pode ser, estás a criar macaquinhos no sótão e teve um sono cheio de pesadelos em que vários animais lutavam entre si para se apoderarem de um outro animal em carcaça.
No dia seguinte o subconsciente guiou-lhe os passos para um laboratório de análises desconhecido. Mas o que me trouxe aqui? Porque não me dirigi directamente ao Hospital? A Teresa ter-me-ia feito de bom grado todas os exames de que preciso.
Interrompeu o seu pensamento a meio quando a recepcionista se lhe dirigiu com um sorridente:
- BOM DIA.
- Bom Dia. Desejava fazer todo o tipo de análises.
- Traz credenciais?
- Não, decidi neste momento fazê-las.
E assim esperou que lhe recolhessem o sangue e lhe pedissem o frasco de urina; dentro de três semanas saberia o resultado.
Três semanas em que se sentiu num trapézio sem rede ajeitando-se, interiormente, aqui e ali, para não vacilar, para sorrir, para comer, para dormir, para viver.
Quase no limite do tempo e da resistência telefonaram-lhe do laboratório pedindo a sua comparência, a Senhora Doutora Helena pretende dar-lhe uma palavrinha, comunicou-lhe a recepcionista.
Desligou maquinalmente e viveu o resto do dia como uma autómata. Como médica sabia o que aquele telefonema significava, afinal os macaquinhos no sótão eram orangotangos de verdade.
Pela primeira vez mentiu a Rufino. Disse-lhe que tinha que ir à florista tratar do bouquet e que não, que não era preciso ele vir, afinal o bouquet era uma coisa tão pessoal e tão feminina, não é?
Flores, pois, pobre Rufino, que um dia terás mesmo que ir tratar delas pessoalmente.
A Senhora Doutora esperava-a e num tom sereno pô-la à vontade; ofereceu-lhe um chá, que ela recusou, pedindo-lhe que fosse directamente ao assunto; explicou-lhe que era colega de profissão e que, portanto, podiam encurtar caminho.
- Muito bem, retorquiu a Doutora Helena invejando o sangue-frio da colega. O exame do HIV/Sida deu positivo.
Dora manteve-se calma. Depois de confirmar o que, no fundo, já sabia, sentiu-se estranhamente calma e serena, como se não fosse nada com ela.
- Muito obrigada, Doutora, respondeu. Afinal não é nada que eu não esperasse. A morte é a nossa única certeza, umas vezes, apressa-se é só.
Saiu e andou durante horas; não estava preocupada com ela, apenas com Rufino que não merecia este desgosto. No meio disto tudo, sorriu, ainda bem que sempre fizemos sexo seguro.
Telefonou-lhe e combinaram encontrar-se no seu ninho e quando ele chegou contou-lhe sem rodeios:
- Tenho Sida.
Como num filme Rufino recuou 10 anos até aquela noite fatídica, ajoelhou-se em frente a Dora, rodeou-lhe o ventre e beijou-o, apaixonadamente.
- Nada mudou, meu amor, faremos os tratamentos.
- Só o nosso amor não mudou, de resto tudo mudou. Não nos casaremos. Venderemos tudo o que comprámos e, depois de eu desaparecer, utilizarás o dinheiro para ajudares doentes com estes problemas e que forem abandonados.
- Mas o que diremos às pessoas, perguntou Rufino.
- A verdade, respondeu ela, secamente.
- Não. Não há necessidade de te expores a mais uma provação. Direi que a culpa é minha. É isso, mesmo. Direi que não haverá casamento porque me apaixonei por Jan-Olov. Quero que todo o tempo que nos resta seja só nosso. Iremos para longe. Todos pensarão que tu desapareceste porque morreste de vergonha por seres trocada por um homem e eu, serei dado como desaparecido, porque para os outros morrerei de verdade.
-Contaremos apenas toda a verdade a Jan-Olov, disse Dora, afinal foi ele que me fez parar para pensar, além disso, é parte directamente interessada no assunto.
A família e os amigos chegaram ao futuro lar dos noivos, ruidosos e felizes, mas à medida que transpunham a soleira da porta de entrada os sentimentos mudavam perante o quadro que se lhes deparava.
Rufino, com um ar sério e infeliz, cumprimentava-os como se recebesse pêsames; Dora, apresentava um semblante pálido, quase transparente, contrastando com a opacidade dos olhos e o vestido de cor vermelha e Jan-Olov, não chamaria mais a atenção do que o habitual, não fosse a pose patética em que, sentado no sofá, cruzava e descruzava as pernas como se de tesouras se tratassem.
- Família e amigos, ensaiou Rufino, pigarreando. O que vos tenho para dizer é grave e bastante difícil para mim.
Os circunstantes iam ficando pouco à vontade. Perceberam, de imediato, que não haveria casamento, não imaginaram, nunca, qual seria o desfecho que se desenhava em pinceladas largas, grossas, terminando num sórdido borrão.
- Não me posso casar com a Dora. Não podia continuar a enganar-me a mim e a ela, a única certeza que sempre tive em minha vida. Resta-me a consolação de ter chegado a esta conclusão antes de estragar a vida nela num casamento, cómodo para mim, mas apenas de fachada. Não é essa a minha postura.
- E se fosses direito ao assunto, filho, adiantou o pai para quem aquela sala, de repente, se assemelhava a uma cela.
- Pois bem, a verdade é que nestes meses em que convivi mais de perto com Jan-Olov na idealização do vestido de noiva de Dora me enamorei de Jan-Olov, gradualmente, sem o saber.
Só me apercebi quando Jan-Olov se teve de ausentar até à Suécia em negócios e eu dei por mim a pensar nele dia e noite, ansiando pelo seu regresso e inventando, para mim mesmo, mil e uma desculpas para não estar com Dora.
Jan-Olov, cada vez mais enfiado no sofá, evoluía em cada vez mais rápidas tesouradas no soalho flutuante, até que este, se cortou em dois, e Jan-Olov se deixou deslizar perante o olhar atónito daquele grupo que não sabia o que fazer, o que dizer, o que pensar daquele cenário, uma vez que Dora, saindo da sua letargia e com um tom rosado nas faces, se aproximou do seu Ex o beijou e disse a todos:
O amor é, sem dúvida, um lugar estranho.

Se leram a versão melodramática até ao fim (o que duvido) podem ler a versão melancómica aqui (o que tenho a certeza que farão ou já fizeram).

Há que dizer que ambas partimos de um anúncio em que apenas sabíamos que se vendia vestido de casamento feito por um estilista sueco.

Falámos as duas e decidimos arranjar um motivo para a venda; os motivos que encontrámos - estapafúrdios, por sinal - foram:

  • Noiva descobriu que tinha uma doença fatal e não facilmente aceite pela sociedade.
  • Noivo num acto de amor resolveu assumir para ele toda a vergonha dizendo que era homossexual e que se tinha apaixonado pelo estilista sueco.

A partir daqui, sem falarmos uma com a outra, fizemos a nossa história; a minha tinha protagonistas com nomes diferentes que eu decidi alterar para este post.

Ela resolveu publicar e eu secundo-a.

FIM

23 comentários:

mjf disse...

Olá!
Liiindo Amor...até parece ficção ...

Beijocas

Patti disse...

Ai milher, deixa-me ir buscar uma caixa de toalhetes, que 'tou p'ráqui lavadinha em lágrimas com este teu registo tão inesperado.

E a imagem das tesouradas no soalho flutuante? Que escrita criativa!

E bolo? Nem sequer houve tempo para provar um bocadinho do bolo da noiva-o?

Vício disse...

chiça! a tua versão é desconcertante!
dava um drama melhor que Romeu e Julieta!

a doença citada pela Patti existe? :p

ps - não foi por mal, mas ainda a pensar na história, nesta ultima frase li "fecundo-a"

Vera disse...

Comecei pela tua. Gostei. Acho que o teu curso anda mesmo a trazer bons resultados :)
Parabéns!

Unknown disse...

Venha a acaixa de lenços, concordo com a Patti!

Não te conhecia melodramática mas também gosto

maria inês disse...

Vocês andam a desiludir-me!
Agora as vossas leituras são "Corín Tellados" e "Capricho"?

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Já estou a imaginar a Maria dos Anjos que saiu de casa da PresidentA para casar. Se leu isto deve estar lavada em lágrimas, coitadinha!

paulofski disse...

Bem me parecia que havia aqui combinação... isto é, que o vestido era o mesmo. Se lá no Ares fiquei de pupilas gordas, aqui estão mirradinhas, quase lavadas.

Então a parte incerta é esta! Ai Dora Dora, em que 31 te meteste mulher, volta lá pra outra parte lambuzar os dedos com os teus hamburguers gordurentos.

ps: gostei de ambas as versões, e por igual, ok?

Cláudia disse...

E eu a pensar que era uma história verdadeira :)

Flip disse...

Gi
gostei viu?
clap clap clap

Si disse...

Ó Sedona Gi!!!
Isto faz-se???
Escrever um texto em que me arranca do trabalhinho que tenho até ao tecto porque não consigo deixar de comentar????????
Comecei pelo seu, porque os textos da Patti são sempre mais longos e normalmente deixo-os para o fim para os apreciar com calma, mas desta vez, meti-me num verdadeiro 31, porque fiquei presa ao seu blog durante tanto tempo que me esqueci dos outros....
Podem chamar-lhe Capricho (de pluma), Tellado ou seja o que seja, que o enredo até pode não ser original (embora para mim o tenha sido) mas este texto saboreia-se! Mais ainda, o que me surpreendeu foi que num registo completamente diferente do habitual, a escrita da Gi, estava lá, o seu estilo, a sua imaginação, a sensibilidade, tudo!
Gostei, Gi, mas gostei MESMO!!
Parabéns!
Beijinhos

Rafeiro Perfumado disse...

Eu li esta versão até ao fim, e no meio de tantos gestos nobres só discordo com a possível decisão de terem o filho fruto da violação, caso tivesse acontecido.

Beijoca.

CPrice disse...

e eu chego via versão da Patti e dou-lhe desde já os meus parabéns Gi pela forma como apresentou o texto.

Do melhor que tenho lido.

meus instantes e momentos disse...

Belissimo blog. Valeu muito a pena vir aqui.
Maurizio

PAS[Ç]SOS disse...

Como se fará para enviar o mesmo comentário para dois blogs diferentes? é que estou deitado no chão
- de barriga para o ar, a bater com as mãos nela e a rir às gargalhadas

e

- de barriga para baixo a bater com os punhos no chão e a chorar baba e ranho

FANTÁSTICAS!!!

Tite disse...

Depois de ler o conto da Patti fiquei com curiosidade e vim meter-me neste 31.

Fiquei tão presa a este como tinha ficado presa ao outro.

A imaginação das duas ladies não tem limites e dou-vos os PARABÉNS!

À Patti já conhecia porque a visito frequentemente. Aqui vim por arrasto e gostei.

Agora vou copiar este post para o Ares

Marta disse...

Venho do blog da Patti!

E este amor aqui é um verdadeiro 31!

Muito bom! Parabéns!

Kok disse...

Li atentamente convencido que no final tudo não passaria de um pesadelo.
Lixei-me! Fiquei com pesadelos!
Vou ler a tal melancómica; pode ser que me safe...

Kok disse...

Também já li e a falar verdade fiquei com vontade de comer qualquer coisita.
Mas antes quero dizer que gostei de vos ler. Ambos os textos.
Agora vou fazer uma tosta mista.

Gi disse...

mjf: É ficção. Pode é roçar a realidade.

patti: eu sei que tu sabes que eu sei o que nós as duas sabemos. ;)

vício: Claro que a doença que a Patti cita existe e é tratada com genéricos!

Vekiki: Muito obrigada.

Catarina: E tu sabes que não sou, não é? Foi um desafio e, pelos vistos, superado. Obrigada.

Inês: Temos pena! Não se pode agradar, simultaneamente, a anjos e a demónios. ;)

Carlos Barbosa de Oliveira: A Maria dos Anjos, nesta altura, deve ler histórias de encantar aos netos.

paulofski: Por acaso não sei se a noiva ia levar combinação. Pelo menos não estava à venda. ;)

cláudia: Então quer dizer que esta história também se vendia, certo?

Flip: Obrigada, viu?

Si: Nem imagina quão espantada e assustadafiquei comigo por este texto me ter saído num fôlego, numa bela manhã de Sábado, tão diferente é do meu registo habitual. Pelos vistos "come-se". Muito obrigada por ter perdido um bocado de tempo comigo, sabe quanto a prezo a Si e os seus comentários.

Rafeiro Perfumado: Em questões de ética pessoal, mesmo que tenha opinião contrária, aceito sempre a da pessoa envolvida; só dou o meu parecer se me for pedido.

once: Seja bem-vinda. Espero que continue a gostar de se vir meter num 31, apesar do meu registo blogal não ser, geralmente, o deste post.

meus instantes e momentos: O Maurizio tem que começar a fazer um cábula dos blogues por onde deixa as caganitas. É que já não é a primeira vez que cá vem, sabe?

PAS[Ç]SSOS: Valha-me Deus que ose nick dá imenso trabalho a escrever. Obrigada pela sua 1ª visita comentada. Ainda bem que gostou.
Se quiser enviar o mesmo comentário para dois blogues [ou mais] diferentes basta fazer COPY PASTE. ;)

Tite: Muito obrigada pelo elogio. Espero que continue a enfiar-se neste 31 e a gostar, apesar dos meus registos serem bem diferentes deste post agora em referência.

Marta: Muito obrigada pela 1ª visita. Espero que continue a meter-se neste 31.

Kok: Tu não me digas que o meu post e da Patti não mereciam um coq au vin para comemorar.
Agora uma tosta mista! ;)

aespumadosdias disse...

Espectacular!

PB disse...

Lindo história, apesar de ser ficção...
Beijinhos

Girstie disse...

É uma bela história de amor de ficção. Duvido é que na realidade esta história acontecesse.