segunda-feira, 23 de novembro de 2009

CONHEÇAM A TERRA DO(S) MEU(S) PAI(S) - 12


Casa dos meus avós paternos em Mapuçá

O REINO DE SUNDÉM E AS SUAS RELAÇÕES COM GOA/3
Segundo nos diz Manohar Melgonkar (in INSIDE GOA), o Rei de Portugal (1) distinguiu o Rei de Sundém Savai (nmodi Sadassiva permitindo-lhe intitular-se Parente da Casa Real Portuguesa e atribuiu-lhe e aos seus herdeiros a patente de General do Exército Português.  J.A. Ismael Gracias, por outro lado (in CASA DE SUNDA), informa que nas cartas ao soberano de Sundém o governador ou vice-rei utilizava inicialmente a fórmula "Ao prezado e generoso amigo .... (nome ...., Rei de Sunda" e mais tarde "Magnífico e grandioso ....(nome)...., Raja (ou Rei) de Sunda, cuja amizade seja perpétua", dando-lhe no texto o tratamento de Alteza e terminando com "Deus ilumine Vossa Alteza na sua divina graça"; e que o Rei de Sunda, a quem o de Portugal tratava por Augusto Primo, começava as suas cartas aos governadores com "Eu .... (nome)....envio cordiais saudações (ou, anteriormente, salamos)" e as terminava com "Deus Nosso Senhor ilumine Vossa Excelência".  Estas fórmulas mantiveram-se até ao fim da dominação portuguesa de Goa.
Malgonkar relata ainda: "Dados os seus antecedentes, talvez não seja de estranhar que Immodi Sadassiva, mesmo na sua adversidade e quando era solicitante de asilo, achasse justo estipular que os portugueses continuassem a fazer as benesses que os Rajás de Sunda já vinham fazendo aos templos e outras instituições religiosas (hindus, então existentes) no territórios que ele agora confiava à guarda dos portugueses.  O que é surpreendente é que o Conde de Ega yivesse imediatamente anuido.  Isso no entanto demonstra como, com o decorrer dos tempos, a política religiosa dos portugueses se tornara mais e mais tolerante e como, enquanto os cristãos de Goa ainda coninuavam a ter privilégios especiais, as outras comunidades, com os seus próprios ritos religisosos, já não eram tidas como algo que afrontasse a Cristandade".  E haja em vista que a odiada Inquisição ainda estava presente em Goa, só vindo a ser definitivamente abolida em 1812 por força de um decreto do Príncipe Regente D. João (mias tarde, em 1816, Rei D. João VI).
No que se refere ao palácio de Bandorá, o engenheiro-agrónomo A. Lopes Mendes que, cumprindo uma missão no Estado da Índia entre 1862 e 1871, aproveitou o tempo livre para estudar os costumes da terra, produzir dezenas de desenhos e publicar as suas constatações na obra A INDIA PORTUGUEZA em dois volumes, dá-nos a seguinte descrição:
"O palácio ou ravullá dos reis de Sundém encontra-se a NO de Pondá.  Torna-se recomendável pela amenidade do sítio em que assenta, pelo seu grande fallém ou lago rectangular, pelo formoso e extenso recal que lhe serve de parqu, e pelo magnífico pagode (2) que defronta com o lgo. - O ravullá tem dois andares; no centro está o vassary ou galeria gentílica com colunatas e os indispnsáveis pancás, ou grandes leques, aonde a família real masculina costuma passar as horas de recreio.  O andar ao rez-de-chão, que deita para o jardim do lado do sul, é destinado à rainha e família real feminina.  As salas de recepção e quartos para hóspedes são em cima no andar nobre, onde se encontra em litografia e gravura o retrato dos nossos reis (3), o da rainha de Inglaterra e o do Xindó, rei de Poona" (primo do rei de Sundém).
Continuando diz Lopes Mendes que "Os reis de Sundém pertencem à casta Condory.  Não usa chindia (4); vestes à moura, e todo o vestuário é branco agaloado de oiro fino; não tomam alimentos diante de pessoas estranhas à sua casta, e a rainha e mais pessoas da família feminina comem separadas dos homens"; e que "Quando morre algum dos membros da família dos reis de Sundém, não é queimado como os gentios das castas superiores, mas enterrado sentado, ficando junto dele uma luz acesa.  Enterra-se no seu jazigo".


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(1) D. José (1750-1777)
(2) templo hindu
(3) reis de Portugal
(4) tufo de cabelo comprido, no centro posterior da cabeça.

7 comentários:

Patti disse...

Uma delícia a linguagem da época. Muita coisa estranha e difícil de engolir hoje em dia, como aquela no final do texto, da alimentação em frente de estranhos... mas enfim há hoje em dia também tanta coisa, em que temos dificuldade em aceitar.

E chagaste a conhecer a casa ainda de pé?

Gi disse...

Conheci a casa de pé, sim senhora.
Ela ainda está de pé e pertence, agora, a um dos irmãos do meu pai. :)

BlueAngel disse...

Obrigada pela partilha. :-)

Lúcia disse...

Bestial, Gi. As coisas que se aprendem, e que se recordam!
E não tens uma sensação de dejá vu quando olhas para a foto? Assim uma espécie de sentimento longínquo de pertença...

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Ainda bem que retomou estas memórias. Se não for abuso posso pedir-lhe um favor? É que esta minha vista de sexygenário já me obriga a grande esforço para ler a letra miudinha...

paulofski disse...

E o que contigo se aprende. Gostei muito de ler Gi.

Sexygenário! Essa está boa, Carlos.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Obrigado por satisfazer o meu pedido. Agora, este post ainda é melhor!