segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O MURO SERVE PARA DIVIDIR. A ÚNICA CONSTRUÇÃO QUE SERVE PARA UNIR EM VEZ DE SEPARAR PESSOAS É A PONTE.


Eu tive uma tia alemã. Uma tia que eu adorava casada com um irmão da minha mãe.
Chamava-se Hella, era loira de olhos azuis.
Era uma força da natureza. Era ela a força movedora do seu clã familiar.
Essa minha tia nasceu em Hamburgo e tinha três irmãs, uma mais velha e outra mais nova.
A mais velha casou e foi viver para os arredores de Berlim.
A partir da madrugada do  dia 13 de Agosto de 1961 e até 09 de Novembro de 1989, deixaram de ter-se a possibilidade física de se verem sempre que quisessem porque, literalmente da noite para o dia,  passou a haver  um muro do tamanho do Mundo a dividi-las.
Vinte anos passados sobre o momento em que "os alemães de leste" tiveram, finalmente, a possibilidade de passarem a fronteira com Berlim Ocidental, há bons motivos para comemorar a queda deste muro, embora ainda haja  outros (muros),  e alguns (muros) se vão construindo a pretextos vários.
Há, no entanto, neste nosso país quem pense que esta vintena de anos foram anos de retrocesso.
O PCP, em nota enviada à Lusa, no dia 04.11.2009, sobre os 20 anos do Muro de Berlim diz o seguinte:
O Partido Comunista Português (PCP) considera que 20 anos após a queda do Muro de Berlim "o mundo está hoje mais injusto, mais desigual, mais perigoso e menos democrático" e que aumentou a "opressão e exploração dos povos".
"As 'comemorações de regime' a que assistimos - com o seu carácter profundamente anti-comunista - são uma operação de reescrita da história e de branqueamento do capitalismo", critica o PCP numa nota enviada à Lusa a propósito dos 20 anos da queda do Muro de Berlim.
"Contrariando o comemorativismo e o triunfalismo que o capitalismo quer impor à humanidade a propósito da 'queda do muro de Berlim', a verdade é que o mundo está hoje mais injusto, mais desigual, mais perigoso e menos democrático", aponta o texto do gabinete de imprensa do PCP.
Para os comunistas, "intensifica-se a opressão e a exploração dos povos - a começar por muitos dos ex-países socialistas, com a regressão de direitos laborais, a privatização de funções do Estado, com a ofensiva contra direitos e liberdades historicamente alcançados".
A pobreza, a emigração em massa e a fome marcam a vida de milhões de seres humanos, "enquanto uma pequena minoria acumula fortunas colossais", prossegue o texto.
"Centenas de milhar de mortos e milhões de feridos, desalojados e refugiados - do Iraque ao Líbano e aos Balcãs, do Afeganistão à Palestina - são o saldo da cruzada de guerra, a que se associa uma nova corrida aos armamentos e o recrudescimento do militarismo, que ilustram bem a natureza agressiva e criminosa do imperalismo", aponta o PCP.
"Esta é a verdadeira face destes '20 anos' que as classes dominantes celebram hoje com entusiasmo", conclui.
Para o PCP, "em Portugal e no mundo, se há coisa que estes 20 anos confirmam é que o capitalismo não só é incapaz de resolver os grandes problemas da humanidade e do planeta, como é o principal factor do seu agravamento".
A solução dos problemas da humanidade "não está nas contra-revoluções que há 20 anos varreram o Leste europeu", considera o PCP, manifestando-se fiel aos ideais da "grande Revolução de Outubro" de 1917.”


Posso falar da Alemanha, porque já lá estive, porque é um país que eu amo e,  estando convicta que existem no mundo regiões  que estão mais injustas, mais desiguais, mais perigosas e menos democráticas, não por culpa da queda de muros, mas sim pela sua contínua construção, em vez da edificação de pontes entre os povos, não por culpa dos povos que habitam essas regiões, mas pelo totalitarismo de um punhado que os governa, a Alemanha é, nesta altura, uma Alemanha muito mais feliz e mais aliviada, principalmente por causa da queda deste muro, embora o povo  da ex-Alemanha Federal tenha tido que fazer um esforço económico considerável (e não só) para integrar os seus irmãos enmurados e este esforço não se fez (e não se faz) sem atritos, nem conflitos, como aliás acontece entre irmãos, ficando tudo em família.
Quanto ao PCP andará sempre a descompasso  e nunca chegará sequer a ter pedreiros suficientes para edificar um murinho.

A minha tia e a  sua irmã já não fazem parte do mundo dos vivos, mas lembro-me da felicidade nos magníficos olhos azuis da minha tia há 20 anos.
E isso faz toda a diferença.

10 comentários:

fj disse...

Bem haja a queda,de um muro nascido antes de "nós" .Imagino quantas as familias e casos amorosos que ficaram a anos de distância por esta afronta...da época...
Ainda há quem tenha trazido pedaços do muro para recordação...infelizmente eu tenho, 100ter ído ao local...


Sabes que não estranho toda esta panópia de "ideias" do PC..nomeadamente do seu SG...já estamos habituados a ouvir/ler este tipo de ..."muda o disco e toca o mesmo"

Precious disse...

Esta é a prova provada que nunca temos uma situação que agrada a 100% a toda a gente.
Que há ainda perigosas clivagens entre leste e ocidente, sim. Que apesar disso, a Alemanha de Leste está muito melhor sem muro, sim. A menos que não se aprecie essa coisa pequena e menosprezada, a que chamamos liberdade.
E o PC continua a negar que tenham existido Gulags... Sem comentários

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Concordo na generalidade com o que escreve , Gi, e penso que não há coisa mais ignóbil do que uma cidade dividida por um muro. Infelizmente, a queda do muro de Berlim, não impediu que outros se construíssem posteriormente: Gaza, Eslováquia e EUA/México.
Enquanto existirem estes muros, não haverá liberdade a sério e é por isso que, embora me congratule pela queda do muro de Berlim, não consigo celebrar. Porque há outros povos a sofrer a mesma injustiça que sofreram os alemães durante 28 anos e o mundo (ocidental)parece não estar incomodado com isso. devoa ter-se aprendido com Berlim, mas afinal, depois de um derrubado, foram construídos pelo menos três.
Como sabe, não tenho qiualquer simpatia pelo PCP, mas concordo que o mundo está hoje mais perigoso, mais injusto e mais desigual do que há 20 anos. Não pelas razões apontadas pelo PCP ( que continua a pensar como se estivéssemos em 1917), mas porque a Internacional Consumista e a globalização a que deu origem, construíram outros muros, porventura mais difíceis de derrubar.
E depois, há uma coisa que não me esqueço. Sabe que Thatcher e Bush ( pai) não queriam que o muro fosse derrubado? Isso dá muito que pensar, não dá?

CPrice disse...

.. "e isso faz toda a diferença" .. faz sim Minha Amiga .. ainda que fosse só ela a festejar faria na mesma.

(Abraço)*

aespumadosdias disse...

Não discordo da declaração do PCP. O capitalismo não é a solução.
Tenho curiosidade em conhecer a Alemanha

avogi disse...

Daqui a 20 anos vamos comemorar a iniciação do muro em Israel. Enquanto que um veio abaixo outro iniciou-se a construçao aliás reinicia-se dia após dia.

Gi disse...

Carlos: Desculpe lá a franqueza (aliás não sei ser de outra maneira),mas não nos podemos congratular com coisas positivas porque ao lado uma determinada coisa com o mesmo cenário não está a ter sucesso?
Então nunca nos congratularíamos com nada e actos positivos que acontecem nunca serviriam de estímulo para que outros aconteçam.
O facto de alguns não quererem que muros sejam derrubados não serve de obstáculo a que muitos outros façam força para que tal aconteça.
Nestes casos geralmente parte do próprio povo oprimido; vai-se criando uma dinâmica de 1 e mais um e mais eum e muitos e às tantas a bola de neve é incontrolável e vai de econtro ao muro e provoca a avalanche.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Não discordo do que diz, Gi. Mas creio que hoje, lá no Rochedo, explico um pouco melhor a razão de ter escrito o post de ontem. Nunca fui contra o derrube do muro, como sabe... (ao contrário da senhora Thatcher) mas penso que o exercício diléctico e aca pacidade de nos colocarmos no lugar do outro, é muito importante para as nossas vidas e está a ser esquecido.

paulofski disse...

No meu post sobre o assunto digo o que penso. Não só a Alemanha mas toda a Europa de Leste, ficou dividida por um muro, por uma cortina de ferro. Mesmo não havendo um muro físico da mesma forma Portugal viveu enclausurado muitos anos, separado do resto do mundo por um sistema fascista que privou o povo de todas as liberdades, o desenvolvimento económico e tecnológico. O Partido Comunista combateu esse autoritarismo e lutou pela liberdade. Faz-me espécie esta nota do PC, para não dizer outra coisa.

Patti disse...

o PCP tem coisas tão obsoletas, que só lembram a algumas proferidas pela Igreja Católica. Deviam confraternizar os dois mais vezes.