domingo, 13 de setembro de 2009

EM TEMPO DE CAMPANHA ELEITORAL: INDECISOS

A categoria mais interessante das sondagens é a dos indecisos. Estes são os eleitores mal dispostos e difíceis que dão cabo da cabeça dos candidatos e depois, só para chatear, abstêm-se.

O Indeciso típico é um indivíduo inteligente, exigente e quase impossível de contentar. Irrita-se, logo para começar com o facto de todos os candidatos quererem ser presidentes. Se, entre os candidatos à Presidência, houvesse um que não tivesse cometido a deselegância e a ganância de querer ser Presidente, seria nesse que ele votaria. Não sendo assim, não. Tal como Groucho Marx, que se recusava a entrar para qualquer clube que fosse capaz de o admitir como sócio, o Indeciso é incapaz de votar em quem se candidate a seja o que for. Qualquer mãe, aliás, ao ouvir da boca dum filho "Ó mãe, eu quando crescer, quero ser Presidente da República", já sabe a galheta que lhe deve assentar. Querer "presidir" já não é bom. Presidir à "República" ainda é pior.

O indeciso fica positivamente alterado com a lata de todos os candidatos quererem ser, não só "Presidentes", e não só da "República", mas ainda por cima, Presidentes de todos os portugueses, conhecendo (só ele!) muitos portugueses dos quais não apetece rigorosamente nada ser presidente. E, sendo assim, o Indeciso só votaria num candidato que tivesse a coragem de dizer "Eu quero ser presidente da maior parte dos portugueses, e os outros que se amanhem", ou, melhor ainda, "Eu só quero ser presidente de uns vinte ou trinta mil portugueses".

Quanto ao Indeciso, se fosse Presidente, sê-lo-ia só de uma mão-cheia de amigos. Não quereria, por exemplo, ser Presidente de nenhum dos candidatos. Podia, finalmente, achar graça a um candidato com originalidade bastante para querer ser presidente de todos os dinamarqueses. Dos portugueses, indiscriminadamente, é que não.

O Indeciso também se enerva com o facto de todos os candidatos dizerem que são "rigorosamente independentes", porque sabre que os políticos são como os bancos: por maior que seja a sede, não se safam sem dependências.

Votaria, isso sim, num candidato que não fosse "rigorosamente independente" mas, vá lá, mais ou menos independente, ou um bocadinho de nada independente, ou - melhor que tudo - um que confessasse ser totalmente dependente, do partido, da esposa, do álcool e das venetas que lhe passassem pela cabeça.

O Indeciso quando ouve um candidato dizer que é independente, responde sempre "Ai és? Olha, eu também sou" e não vota em nenhum.

Outtra coisa que o incomoda é o facto de todos os candidatos, durante os debates, terem dito que têm "o maior respeito e simpatia" uns pelos outros. Se se respeitam todos tanto, e se simpatizam tanto uns com os outros, pergunta ele, porque é que não se unem todos numa Grande Frente "Respeito, Simpatia e Democracia" para garantir 100 por cento dos votos? O Indeciso votaria no candidato que confessasse ter, não maior - porque é que há-de ser logo o maior?- mas outra quantidade qualquer de respeito. Por exemplo, quem dissesse "Tenho por sí o maior respeito, mas quanto a simpatia, lamento mas é rigorosamente néribite". Ou, também dava "Só Deus sabe o quanto eu deliro de simpatia por si, mas respeitinho é que não, desculpe lá".

Outra coisa que maça o Indeciso é a questão dos "passados de democrata" que tem servido para fazer debates como quem pede bifes, mais ou menos bem passados, num restaurante. "Como quer o candidato? Mal ou bem passado?" "Olhe, era passado de democrata, se fizer o favor". O Indeciso votaria naquele que dissesse "Bem sei que nem sempre me tenho batido pela democracia mas, de futuro, prometo ir fazendo os possíveis...", ou noutro que confessasse "Sim, é verdade que quando era novo batia-me bastante pela democracia, mas ultimamente tem-me faltado a ontade, sabe?".

O Indeciso também não acha graça à questão das voltas. Na volta, não vota em nenhum. No fundo, a única coisa que lhe apetece é abster-se na primeira volta, para depois vir-lhe a vontade inequívoca de votar num dos candidatos que não passaram à segunda. E a única consolação que lhe resta é a de saber, de antemão, que, depois de estar tudo decidido, vai ter um grau de satisfação de setenta e cinco por cento. Isto porque, qualquer que seja o resultado, três candidatos têm obrigatoriamente de perder. Para ele, 3 contra 1 não é nada mau. Melhor, só se perdessem os quatro.

O Indeciso é quem engata as sondagens todas. Perguntam-lhe em quem vai votar, e ele diz "Voto no candidato do subdesenvolvimento" ou "Voto naquele que já cá esteve em causa por causa de uma cómoda do século XVIII".

Quando lhe perguntam quem, ele responde sempre "Isso agora é que eu não digo - mas pode pôr aí que estou decidido". E o pior é que está mesmo.

Miguel Esteves Cardoso in "A causa das coisas"



6 comentários:

aespumadosdias disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
aespumadosdias disse...

Um indeciso não é mais nem menos que 1 ignorante em termos políticos.

Filoxera disse...

Hoje não estou em dia de falar sobre eleições.
Há uma distinção à tua espera no EQ.
Beijos.

Lúcia disse...

:))
Tudo o que dizes é certo Gi.
E são os indecisos que decidem as eleições! Estamos nessas mãos - mesmo que se abstenham. Até essas contas contam para fazer outras!

Óptima semana!

Girstie disse...

Face ao estado das coisas actuais é normal que estejamos indecisos. Não nos dão grandes alternativas.
Eu opto por não ouvir debatas e apenas por filtrar uma ou outra coisa. Mas já tenho quase a certeza no que vou votar.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Nunca estive tão indeciso como este ano, mas quando chegar a hora, espero votar em consciência.
Bolas, onde é que eu já ouvi isto?