domingo, 16 de maio de 2010
É DOMINGO
É domingo.
E aos domingos as árvores crescem na cidade,
e os pássaros, julgando-se no campo, desfazem-se a cantar empoleirados
nelas.
Tudo volta ao princípio.
António Gedeão, Novos poemas póstumos (1990)
terça-feira, 16 de março de 2010
SE PENSAM QUE O METROSSEXUAL É UMA MODERNICE...
domingo, 14 de março de 2010
UM EXEMPLO DE CAMARADAGEM
“Começo por lhe dizer que, na minha opinião, você não tem contenção, que é como o espectador no teatro que exprime o seu entusiasmo com tão pouca moderação que impede aos outros e a si próprio o ouvir. Esta falta de contenção faz-se sentir, sobretudo, nas descrições da natureza, que você corta com diálogos. Quando se lêm tais descrições, apetece que elas sejam mais condensadas, mais curtas, duas ou três linhas.” – Carta de 3-XII-I898
“O seu único defeito é a falta de contenção a falta de graça. A graça é quando um homem gasta o menor número possível de movimentos para uma acção precisa. Mas, no seu malbaratar de gestos, sente-se o excesso. As descrições da natureza são artísticas: você é um verdadeiro paisagista. O que se nota é uma frequente assimilação ao homem (antropomorfismo), quando o mar respira, o céu olha, a estepe se empertiga, etc. Tais assimilações tornam as descrições um pouco monótonas, por vezes melosas, por vezes confusas. O pitoresco e a eloquência nas descrições só se conseguem através da simplicidade, com frases tão simples como “o sol pôs-se”, “a noite chegou”, “a chuva começou a cair”. – Carta de 2-I-I899
“Você tem tantas palavras qualificativas que a atenção do leitor só penosamente com elas se identifirca e acaba por fatiga-se. Quando escrevo “O homem sentou-se na relva” a minha frase é fácil de compreender, porque é clara e não retém a atenção. A minha frase, pelo contrário, será difícil de compreender, e bastante pesada, se eu escrever: “Um homem corpulento, estreito de ombros e de estatura meã, de barba ruiva, sentou-se na verde relva, já muito pisada por quem por ali passara, sentou-se silenciosamente, circunvagando olhares tímidos e amedrontados”. Isto não entra logo na cabeça e a literatura deve penetrar nela imediatamente, num ápice.” – Carta de 3-ix-1899
Quando porão em prática os escritores portugueses – os eternos desavindos – uma camaradagem assim? Tudo leva a crer que ela é, mais do que nunca, urgente.
Alexandre O'Neill
In Luta, 8 Abril 1976
sexta-feira, 5 de março de 2010
AVANÇO DE TEMPORADA ♀♀♀♀
domingo, 28 de fevereiro de 2010
AUTOBIOGRAFIA
domingo, 13 de dezembro de 2009
O AUTOMÓVEL IA DESAPARECENDO
domingo, 8 de novembro de 2009
É POR ISSO QUE EU GOSTO TANTO DESTE SENHOR
domingo, 1 de novembro de 2009
É POR ISSO QUE EU GOSTO TANTO DE LER ESTE SENHOR E NÃO TANTO DE LER O OUTRO SENHOR...
domingo, 11 de outubro de 2009
DESABAFO DE UM BOM MARIDO
Ela vai às terças-feiras, e eu às quintas.
Nós também dormimos em camas separadas.
A dela é em Fortaleza e a minha em São Paulo.
Eu levo minha esposa a todos os lugares, mas ela sempre acha o caminho de volta. Perguntei a ela onde ela gostaria de ir no nosso aniversário de casamento. ‘Em algum lugar que eu não tenha ido há muito tempo!‘ ela disse.
Então eu sugeri a cozinha.
Nós sempre andamos de mãos dadas. Se eu soltar, ela vai às compras.
Ela tem um liquidificador elétrico, uma torradeira elétrica, e uma máquina de fazer pão elétrica. Então ela disse: ‘Nós temos muitos aparelhos, mas não temos lugar pra sentar‘.
Daí, comprei pra ela uma cadeira elétrica.
Lembrem-se, o casamento é a causa número um para o divórcio. Estatisticamente, 100 % dos divórcios começam com o casamento.Eu me casei com a ‘Sra. Certa’. Só não sabia que o primeiro nome dela era ‘Sempre‘.
Já faz 18 meses que não falo com minha esposa. É que não gosto de interrompê-la. Mas tenho que admitir, a nossa última briga foi culpa minha.
Ela perguntou: ‘O que tem na TV?‘
E eu disse ‘Poeira’.
No começo Deus criou o mundo e descansou. Então, Ele criou o homem e descansou. Depois, criou a mulher.
Desde então, nem Deus, nem o homem, nem o Mundo tiveram mais descanso. (ahusuhsauhsasahuashashu)
Quando o nosso cortador de grama quebrou, minha mulher ficava sempre me dando a entender que eu deveria consertá-lo. Mas eu sempre acabava tendo outra coisa para cuidar antes: o caminhão, o carro, a pesca, sempre alguma coisa mais importante para mim.
Finalmente ela pensou num jeito esperto de me convencer.Certo dia, ao chegar em casa, encontrei-a sentada na grama alta, ocupada em podá-la com uma tesourinha de costura. Eu olhei em silêncio por um tempo, me emocionei bastante e depois entrei em casa.
Em alguns minutos eu voltei com uma escova de dentes e lhe entreguei.’
- Quando você terminar de cortar a grama,’ eu disse, ‘você pode também varrer a calçada.’
Depois disso não me lembro de mais nada. Os médicos dizem que eu voltarei a andar, mas mancarei pelo resto da vida.”O casamento é uma relação entre duas pessoas na qual uma está sempre certa e a outra é o marido…“
Luiz Fernando Veríssimo
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
O AMOR E A SUA CORRESPONDÊNCIA
A banalização do telemóvel criou a ilusão do objecto omnipresente. Numa posição de omnipresença, um objecto de paixão passou a ter a "obrigação" da resposta imediata a qualquer estímulo, sob pena de provocar o sofrimento do outro.
A angústia da perda passou a estar associada a trivialidades - pode acontecer, vertiginosa, quando se esgotou uma bateria; ocorre quando o amor se passeia displicente em lugares sem rede; e pode disparar a níveis clínicos quando o objecto amoroso, usando um direito inalienável de autodeterminação, decide desligar o telemóvel.
No amor, o telemóvel fez disparar o stress, a ansiedade, as angústias da rejeição e outras malaises de la civilisation. Um telemóvel desligado é uma providência cautelar para uma ruptura. Um presumível sintoma de infidelidade. Um fechar com a porta na cara. Um não, uma nega, uma tampa.
O telemóvel é caro, mas o amor tende a minimizar o impacto económico das medidas a que, no auge da paixão, recorre. E depois há as sms, esse deslumbrante e mais económico instrumento de sedução, mas - também ele - uma grilheta dos amantes. Os segundos de resposta, os minutos, as horas, tudo é contabilizado para avaliar o impacto de um amor.
Institucionalizados os novos rituais do enamoramento, não importa se o objecto costuma estar sequestrado na Biblioteca Nacional ou vive em audiências contínuas com díspares personalidades; se, por qualquer razão que o coração se esforça por desconhecer, não vive com o maldito computadorzinho na mão, em permanente disposição de disparar uma resposta irredutível.
O mail tem um tempo mais distendido, se excluirmos as pessoas cuja profissão as obriga a estar permanentemente em frente do computador. Estas são ainda fustigadas com o monstro do messenger, que, de borla, obriga ao diálogo contínuo.
Mas a minha amiga Vanessa, que num estado de paixão patético tem passado o último mês a escrever mails ridículos, sms ridículas e a contar os segundos da resposta, teve um destes dias um inesperado e surpreendente ataque de felicidade amoroso: recebeu uma carta. Um postal dos correios. Um envelope com selo e tudo. Quando abriu a caixa e viu que não eram só contas, ia desfalecendo.
Uma carta. Uma carta?
Sim, só um grande amor.
Ana Sá Lopes in DN
domingo, 4 de outubro de 2009
O SARAIVA ou O SARAIVA E AS MENINAS
Quando uma nação crê firmemente em si mesma, humilha os outros ainda quando se engana e é ridícula. Coisa por cousa, mais vale ser Saraiva. Porque é preciso não esquecer o resultado prático de tudo isto. As raparigas ficaram insultadas, os rapazes ficaram envergonhados: quem ficou vencedor foi o Saraiva.
Fernando Pessoa in "Contos, Fábulas & outras ficções"
domingo, 20 de setembro de 2009
O SEGREDO DE ROMA
César abriu em lágrimas, e os que estavam pasmaram. O que erguera a cabeça, baixou-a um pouco; estava atónito, e além disso ela pesava, porque ele a erguera a braço largo.
- Assim, que vale uma vitória? - perguntou César.
- É certo - respondeu o que o seguia, pois não sabia que dizer.
E César continuou. "Foi meu amigo, meu companheiro, era romano e soldado..."
E depois disse, "Cheguei tarde..."
O companheiro esboçou um gesto sem nada, e César voltou as costas curvas de dor.
"Cheguei tarde", repetiu. "Queria tê-lo eu matado com as minhas mãos".
Moralidade:
Cuidado com as lágrimas, quando são estadistas que as choram.
Fernando Pessoa in "Contos, Fábulas & outras ficções"
domingo, 13 de setembro de 2009
EM TEMPO DE CAMPANHA ELEITORAL: INDECISOS
quarta-feira, 22 de julho de 2009
INSTANTE DA MINHA ESTANTE
“A década que medeia entre os 40 e os 50 anos é para as pessoas temperamentais, para os artistas, sempre uma época crítica, de inquietação e frequente insatisfação, uma altura em que é comum haver dificuldades em lidar com a vida e com nós mesmos. Depois disso, sobrevêm tempos de acalmia. Pude experimentar isso não só em mim mesmo, como também o observei em muitos outros. Por muito bela que seja a juventude, uma época de efervescência e de combates, também o envelhecer e o amadurecimento possuem a sua beleza própria e proporcionam felicidade.
Com 50 anos, o ser humano começa a pôr de lado certas criancices como a obtenção de fama, reputação e estatuto, passando a olhar retrospectiva e desapaixonadamente a sua vida passada. Aprende a esperar, a calar-se, a escutar; ainda que porventura alguma dessas virtudes venha a ser corrompida por quaisquer debilidades ou por algumas fraquezas, nunca deixará de considerar proveitoso este processo.”
terça-feira, 14 de julho de 2009
PORQUE EU GOSTO DE TIM BURTON...
Olhem-me só para a Helena Bonham Carter como Rainha de Copas e para o meu mais-que-tudo Johnny Depp como Chapeleiro Maluco?
Não estão um must?
Também gosto do que Tim Burton escreve:
A MORTE MELANCÓLICA DO RAPAZ OSTRA
Nas dunas, pediu-lhe casamento,
à beira-mar se casaram.
Na Ilha de Capri celebraram
esse tão grande momento.
À ceia jantaram um prato sobejo:
uma bela caldeirada de peixe e marisco.
E, enquanto ele saboreava o petisco,
no coração ela pediu um desejo.
O seu desejo tornou-se realidade: teve um bébé.
Mas seria um ser humano?
Pois é,
na verdade,
tinha dez dedos nos pés e nas mãos,
tinha visão e circulação.
Podia ouvir, podia sentir,
mas seria normal?
Isso não.
Este nascimento aberrante, este cancro, esta praga
foi o princípio e o fim de toda uma saga.
Ela zangou-se com o doutor:
"Esta criança não é minha.
Cheira a maresia, a salmoura e a tainha."
"Olhe que tem sorte, ainda a semana passada
tratei de uma miúda com crista e rabo de pescada.
Se o seu filho é meio ostra
não me venha acusar...
... já pensou por acaso
numa casinha à beira-mar?"
Sem saber que lhe chamar,
chamaram-lhe Alves,
ou, às vezes,
"aquela coisa da espécie dos bivalves."
Toda a gente se perguntava mas ninguém sabia
quando é que da concha o Rapaz Ostra saía.
Quando os quatro gémeos Lopes um dia o foram ver,
chamaram-lhe amêijoa e desataram a correr.
Num dia azarado,
Alves ficou encharcado
à esquina da rua Miramar.
Cabisbaixo,
viu a chuva rodopiar
pela sarjeta abaixo.
Na auto-estrada, a sua mãe,
à beira de um esgotamento,
esmurrava o painel dos instrumentos
não conseguia conter
a dor crescente,
a frustração
que a fazia sofrer.
"Olha, querido", disse ela,
"isto não é para ter piada,
mas eu já não pesco nada
e acho que é do nosso filho.
Não gosto de o dizer, pois sou uma mulher que te ama,
mas tu culpas o nosso filho pelos teus problemas na cama."
Ele bem se aplicou, com muito denodo;
tentou salvas e unguentos
que lhe faziam comichões,
tintura de iodo,
mezinhas e poções.
Coçou-se e sangrou e esmifrou-se todo.
Até que o médico diagnosticou:
"Eu não sei de ciência,
mas a cura do seu problema pode ser o que o causou.
Dizem que comer ostras aumenta a potência:
talves se comer a criança
fique cheio de pujança."
Ele foi pela calada
estava escuro como o breu.
Tinha a testa suada
e nos lábios - uma mentira ensaiada:
"Filho, és feliz? Não me quero intrometer,
mas nunca sonhas com o Céu?
Nunca quiseste morrer?"
Alves pestanejou duas vezes
mas não ripostou.
O pai tacteou o punhal
e a sua gravata aliviou.
Pegando no filho ao colo,
Alves pingou-lhe a lapela.
Levando a concha aos lábios,
despejou-o pela goela.
Depressa o enterraram na areia junto ao mar
- uma prece rezaram, uma lágria mderramaram -
e para casa voltaram à hora do jantar.
A campa do Rapaz Ostra foi marcada com uma cruz.
Palavras escritas na areia
prometiam a salvação de Jesus.
Mas a sua memória perdeu-se numa onda de maré-cheia.
De volta à paz do lar,
ele beijou-a arfar:
"Que tal uma rapidinha?"
"Mas desta vez", sussurou ela, "quero uma rapariguinha."
Gostaram? querem mais? Comprem o livro. Lê-se em menos de meia-hora!
domingo, 5 de julho de 2009
AINDA HÁ PRÍNCIPES ENCANTADOS!
domingo, 10 de maio de 2009
TENHAM UM BOM ALMOÇO
Em Portugal o caso mais sério - e a cerimónia mais solene - é o almoço.domingo, 3 de maio de 2009
MÃE

mãe é mãe :)
quinta-feira, 2 de abril de 2009
HOJE É DIA INTERNACIONAL DO LIVRO INFANTIL




