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domingo, 16 de maio de 2010

É DOMINGO

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É domingo.
E aos domingos as árvores crescem na cidade,
e os pássaros, julgando-se no campo, desfazem-se a cantar empoleirados
nelas.
Tudo volta ao princípio.

António Gedeão, Novos poemas póstumos (1990)
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terça-feira, 16 de março de 2010

SE PENSAM QUE O METROSSEXUAL É UMA MODERNICE...


E Jacinto começava... Cada um desses utensílios de aço, de marfim, de prata, impunham ao meu amigo, pela influência omnipoderosa que as coisas exercem sobre o dono (sunt tyrannoe rerum) o dever de o utilizar com aptidão e deferência.  E assim as operações do alindamento do Jacinto apresentavam a prolixidade, reverente e insuprimível, dos ritos de um sacrifício.
Começava pelo cabelo... Com uma escova chata, redonda e dura, acamava o cabelo, corredio e louro, no alto, aos lados da risca, com uma escova estreita e recurva, à maneira do alfange de um persa, ondeava o cabelo sobre a orelha, com uma escova côncava, em forma de telha, apastava o cabelo, para trás, sobre a nuca... Respirava e sorria.  Depois, com uma escova de longas cerdas, fixava o bigode; com uma escova leve e flácida acurvava as sobrancelhas, com uma escova feita de penugem regularizava as pestanas.  E deste modo Jacinto ficava diante do espelho. passando pêlos sobre o seu pêlo, durante catorze minutos.
Penteado e cansado, ia purificar as mãos.  Dois criados, ao fundo, manobravam com perícia e vigor os aparelhos do lavatório - que era apenas um resumo dos maquinismos monumentais da sala de banho.  Ali, sobre o mármore verde e róseo do lavatório, havia apenas duas duchas (quente e fria) para a cabeça, quatro jactos, graduados desde zero até cem graus, o vaporizador de perfumes, a fonte de água esterilizada (para os dentes), o repuxo para a barba, e ainda torneiras que rebrilhavam e botões de ébano que, de leve roçados, desencadeavam o marulho e o estridor de torrentes nos Alpes... [...]
Quando Jacinto acabava de se enxugar laboriosamente a toalhas de felpo, de linho, de corda entrançada (para restabelecer a circulação), de seda frouxa (para lustrar a pele)...
In "Civilização", de Eça de Queiroz

domingo, 14 de março de 2010

UM EXEMPLO DE CAMARADAGEM

Tchekov e Gorki não se corresponderam em vão. Mal se conheceram epistolarmente, o primeiro, escritor mais velho, experiente e disciplinado que o autor de A Mãe, não poupou a este comentários que, com didáctica franqueza, lhe ocorreram sobre a obra, então incipiente, de Alexei Maximovitch Pechkov (“Gorky”, o Amargo). E não se pense que as coisas se passavam pela rama. Tchecov lia e criticava, minuciosa e atentamente, as páginas que o outro lhe mandava. Não consta que, por seu lado, Gorky se tivesse alguma vez melindrado com as observações do seu maior-em-letras.

“Começo por lhe dizer que, na minha opinião, você não tem contenção, que é como o espectador no teatro que exprime o seu entusiasmo com tão pouca moderação que impede aos outros e a si próprio o ouvir. Esta falta de contenção faz-se sentir, sobretudo, nas descrições da natureza, que você corta com diálogos. Quando se lêm tais descrições, apetece que elas sejam mais condensadas, mais curtas, duas ou três linhas.” – Carta de 3-XII-I898

“O seu único defeito é a falta de contenção a falta de graça. A graça é quando um homem gasta o menor número possível de movimentos para uma acção precisa. Mas, no seu malbaratar de gestos, sente-se o excesso. As descrições da natureza são artísticas: você é um verdadeiro paisagista. O que se nota é uma frequente assimilação ao homem (antropomorfismo), quando o mar respira, o céu olha, a estepe se empertiga, etc. Tais assimilações tornam as descrições um pouco monótonas, por vezes melosas, por vezes confusas. O pitoresco e a eloquência nas descrições só se conseguem através da simplicidade, com frases tão simples como “o sol pôs-se”, “a noite chegou”, “a chuva começou a cair”. – Carta de 2-I-I899

“Você tem tantas palavras qualificativas que a atenção do leitor só penosamente com elas se identifirca e acaba por fatiga-se. Quando escrevo “O homem sentou-se na relva” a minha frase é fácil de compreender, porque é clara e não retém a atenção. A minha frase, pelo contrário, será difícil de compreender, e bastante pesada, se eu escrever: “Um homem corpulento, estreito de ombros e de estatura meã, de barba ruiva, sentou-se na verde relva, já muito pisada por quem por ali passara, sentou-se silenciosamente, circunvagando olhares tímidos e amedrontados”. Isto não entra logo na cabeça e a literatura deve penetrar nela imediatamente, num ápice.” – Carta de 3-ix-1899

Quando porão em prática os escritores portugueses – os eternos desavindos – uma camaradagem assim? Tudo leva a crer que ela é, mais do que nunca, urgente.
Alexandre O'Neill
In Luta, 8 Abril 1976

sexta-feira, 5 de março de 2010

AVANÇO DE TEMPORADA ♀♀♀♀

(QUE ALEGRIA) MULHER (QUE TRISTEZA) MULHER
...Porque adorei esta deliciosa  maneira de descrever o momento em que uma menina se torna mulher.

Na tua barriguita e na de todas nós, mujeres, há um baguito de romã que amadurece e Deus manda os seus anjos fazerem o ninho onde pode ser deixada uma semente.  Se a semente não vem, o ninho se desmancha e suas penas de sangue deixam o corpo da mulher.  E outra lua e outro nido e lua atrás de lua e mês atrás de mês e nido atrás de nido, até que a semente venha fecundar o bago de romã.  E assim se forma um fruto de vida que ganhará coração e mãos e tudo.  E será um menino ao fim de nove luas.  Quando a boca do teu corpo expelir pela primeira vez sangue abandonado, serás (que alegria) mujer, (que tristeza) mujer…
In “Os três casamentos de Camilla S.”, Rosa Lobato de Faria

domingo, 28 de fevereiro de 2010

AUTOBIOGRAFIA

Quando eu era pequena havia um mistério chamado Infância. Nunca tínhamos ouvido falar de coisas aberrantes como educação sexual, política e pedofilia. Vivíamos num mundo mágico de princesas imaginárias, príncipes encantados e animais que falavam. A pior pessoa que conhecíamos era a Bruxa da Branca de Neve. Fazíamos hospitais para as formigas onde as camas eram folhinhas de oliveira e não comíamos à  mesa com os adultos. Isto poupava-nos a conversas enfadonhas e ncompreensíveis, a milhas do nosso mundo tão outro, e deixava-nos livres para projectos essenciais, como ir ver oscilar os agriões nos regatos e fazer colares e brincos de cerejas. Baptizávamos as árvores, passeávamos de burro, fabricávamos grinaldas de flores do campo.
Fazíamos quadras ao desafio, inventávamos palavras e entoávamos melodias nunca aprendidas.

Na Infância as escolas ainda não tinham fechado. Ensinavam-nos coisas inúteis como as regras da sintaxe e da ortografia, coisas traumáticas como sujeitos, predicados e complementos directos, coisas imbecis como verbos e tabuadas. Tinham a infeliz ideia de nos ensinar a pensar e a surpreendente mania de acreditar que isso era bom.
Não batíamos na professora, levávamos-lhe flores.
E depois ainda havia infância para perceber o aroma do suco das maçãs trincadas com dentes novos, um rasto de hortelã nos aventais, a  angustia de esperar o nascer do sol sem ter a certeza de que viria (não fosse a ousadia dos pássaros só visíveis na luz indecisa da
aurora), a beleza das cantigas límpidas das camponesas, o fulgor das  papoilas. E havia a praia, o mar, as bolas de Berlim. (As bolas de  Berlim são uma espécie de ex-libris da Infância e nunca mais na vida  houve fosse o que fosse que nos soubesse tão bem).

Aos quatro anos aprendi a ler; aos seis fazia versos, aos nove ensinaram-me inglês e pude alargar o âmbito das minhas leituras infantis. Aos treze fui, interna, para o Colégio. Ali havia muitas raparigas que cheiravam a pão, escreviam cartas às escondidas, e sonhavam com os filmes que viam nas férias. Tínhamos a certeza de que  o Tyrone Power havia de vir buscar-nos, com os seus olhos morenos,  depois de nos ter visto fazer uma entrada espampanante no salão de baile onde o Fred Astaire já nos teria escolhido para seu par ideal.
Chamava-se a isto Adolescência, as formas cresciam-nos como as  necessidades do espírito, música, leitura, poesia, para mim sobretudo literatura, história universal, história de arte, descobrimentos e o Camões a contar aquilo tudo, e as professoras a dizerem, aplica-te,  menina, que vais ser escritora.
Eram aulas gloriosas, em que a espuma do mar entrava pela janela, a  música da poesia medieval ressoava nas paredes cheias de sol, ay eu  coitada, como vivo em gran cuidado, e ay flores, se sabedes novas, vai-las lavar alva, e o rio corria entre as carteiras e nele molhávamos os pés e as almas.
Além de tudo isto, que sorte, ainda havia tremas e acentos graves.
Mas também tínhamos a célebre aula de Economia Doméstica de onde saíamos com a sensação de que a mulher era uma merdinha frágil, sem vontade própria, sempre a obedecer ao marido, fraca de espírito que  não de corpo, pois, tendo passado o dia inteiro a esfregar o chão com  palha de aço, a espalhar cera, a puxar-lhe o lustro, mal ouvia a chave na porta havia de apresentar-se ao macho milagrosamente fresca, vestida de Doris Day, a mesa posta, o jantarinho rescendente, e nem  uma unha partida, nem um cabelo desalinhado, lá-lá-lá, chegaste, meu  amor, que felicidade! (A professora era uma solteirona, mais sonhadora do que nós, que sabia todas as receitas do mundo para tirar todas as  nódoas do mundo e os melhores truques para arear os tachos de cobre que ninguém tinha na vida real).
Mas o que sabíamos nós da vida real? Aos 17 anos entrei para a > Faculdade sem fazer a mínima ideia do que isso fosse. Aos 19 casei-me,  ainda completamente em branco (e não me refiro só à cor do vestido).
Só seis anos, três filhos e centenas de livros mais tarde é que  resolvi arrumar os meus valores como quem arruma um guarda-vestidos.
Isto não, isto não se usa, isto não gosto, isto sim, isto seguramente,  isto talvez. Os preconceitos foram os primeiros a desandar, assim como todos os itens que à pergunta porquê só me tinham respondido porque sim, ou, pior, porque sempre foi assim. E eu, tumba, lixo, se sempre  foi assim é altura de deixar de ser e começar a abrir caminho às  gerações futuras (ainda não sabia que entre os meus 12 netos se contariam nove mulheres).

Ouvi ontem uma jovem a dizer, a revolução  que nós fizemos nos últimos anos. Não meu amor: a revolução que NÓS  fizemos nos últimos 50 anos. Mas não interessa quem fez o quê. É  preciso é que tenha sido feito. E que seja feito. E eu fiz tudo,  quando ainda não era suposto. Quando descobri que ser livre era  acreditar em mim própria, nos meus poucos, mas bons, valores pessoais.



Depois foram as circunstâncias da vida. A alegria de mais um filho, erros, acertos, disparates, generosidades, ingenuidades, tudo muito bom para aprender alguma coisa. Tudo muito bom. Aprender é a palavra chave e dou por mal empregue o dia em que não aprendo nada. Ainda espero ter tempo de aprender muita coisa, agora que decidi que a  Bíblia é uma metáfora da vida humana e posso glosar essa descoberta  até, praticamente, ao infinito.
Pois é. Eu achava, pobre de mim, que era poetisa. Ainda não sabia que estava só a tirar apontamentos para o que havia de fazer mais tarde. A  ganhar intimidade, cumplicidade com as palavras. Também escrevia  crónicas e contos e recados à mulher-a-dias. E de repente, aos 63  anos, renasci. Cresceu-me uma alma de romancista e vá de escrever dez romances em 12 anos, mais um livro de contos (Os Linhos da Avó) e sete ou oito livros infantis. (Esta não é a minha área, mas não sei porquê,  pedem-me livros infantis. Ainda não escrevi nenhum que me procurasse  como acontece com os romances para adultos, que vêm de noite ou quando ou no comboio e se me insinuam nos interstícios do cérebro, e me atiram para outra dimensão e me fazem sorrir por dentro o tempo todo e me tornam mais disponível, mais alegre, mais nova).
Isto da idade também tem a sua graça. Por fora, realmente, nota-se muito. Mas eu pouco olho para o espelho e esqueço-me dessa história da  imagem. Quando estou em processo criativo sinto-me bonita. É como se tivesse luzinhas na cabeça. Há 45 anos, com aquela soberba muito feminina, costumava dizer que o meu espelho eram os olhos dos homens.
Agora são os olhos dos meus leitores, sem distinção de sexo, raça,  idade ou religião. É um progresso enorme.
Se isto fosse uma autobiografia teria que dizer que, perto dos 30, comecei a dizer poesia na televisão e pelos 40 e tais pus-me a fazer  umas maluqueiras em novelas, séries, etc. Também escrevi algumas  destas coisas e daqui senti-me tentada a escrever para o palco, que é uma das coisas mais consoladoras que existem (outra pessoa diria gratificantes, mas eu, não sei porquê, embirro com essa palavra). Não há nada mais bonito do que ver as nossas palavras ganharem vida, e sangue, e alma, pela voz e pelo corpo e pela inteligência dos actores.
Adoro actores. Mas não me atrevo a fazer teatro porque não aprendi.
Que mais? Ah, as cantigas. Já escrevi mais de mil e 500 e é uma das  coisas mais divertidas que me aconteceu. Ouvir a música e perceber o  que é que lá vem escrito, porque a melodia, como o vento, tem uma alma  e é preciso descobrir o que ela esconde. Depois é uma lotaria. Ou me cantam maravilhosamente bem ou tristemente mal. Mas há que arriscar e, no fundo, é só uma cantiga. Irrelevante.
Se isto fosse uma autobiografia teria muitas outras coisas para  contar. Mas não conto. Primeiro, porque não quero. Segundo, porque só  me dão este espaço que, para 75 anos de vida, convenhamos, não é  excessivo.
Encontramo-nos no meu próximo romance.
Rosa Lobato de Faria in "JL"

domingo, 13 de dezembro de 2009

O AUTOMÓVEL IA DESAPARECENDO

Eu explico como foi (disse o homem triste que estava com uma cara alegre), eu explico como foi...

Quando tenho um automóvel, limpo. Limpo-o por diversas razões: para me divertir, para fazer exercícios, para ele não ficar sujo.

O ano passado comprei um carro muito azul. Também limpava esse carro. Mas, cada vez que o limpava, ele teimava em se ir embora. O azul ia empalidecendo, e eu e a camurça é que ficávamos azuis. Não riam... A camurça ficava realmente azul: o meu carro ia passando para camurça. Afinal, penei, não estou limpando este carro: estou-o desfazendo.

Antes de acabar um ano, o meu carro estava metal puro: não era um carro, era uma anemia. O azul tinha passado para a camurça. Mas eu não achava graça a essa transfusão de sangue azul.

Vi que tinha de pintar o carro de novo.

Foi então que decdi orientar-me um pouco sobre esta questão dos esmaltes. Um carro pode ser muito bonito, mas, se o esmalte com que está pntado tiver tendências para a emigração, o carro poderá servir, mas a pintura é que não serve. A pintura deve estar pegada, como o cabelo, e não sujeita a uma liberdade repentina, como um chinó. Ora o meu carro tinha um esmalte chinó, que saía quando se empurrava.

Pensei eu: quem será o amigo mais apto a servir-me de empenho para um esmalte respeitável? Lembrei-me que devia ser o Bastos, lavador de automóveis com uma Caneças de duas portas nas Avenidas Novas. Ele passa a vida a esfregar automóveis, e deve portanto saber o que vale a pena esfregar.

Procurei-o e disse-lhe: "Bastos amigo, quero pintar o meu carro de gente. Quero pintá-lo de uma esmalte que fique lá, com um esmalte fiel e indivorciável. Com que esmalte é que o hei-de pintar?"

"Com BERRYLOID", respondeu o Bastos, "e só uma criatura muito ignorante é que tem necessidade de me vir aqui maçar com uma pergunta a que responderia do mesmo modo o primeiro chauffeur que soubesse a diferença entre um automóvel e uma lata de sardinhas".

"Perfeitamente..."

"Com que é que você quer pintar um carro", continuou o Bastos sem me ligar importância, "senão com um esmalte que seja ao mesmo tempo brilhante e permanente? E, ainda por cima, fácil de aplicar... Isto do fácil de aplicar é comigo, mas é uma virtude, e as virtudes citam-se... Vá-se embora!..."

"Bom...", disse eu.

"Isto de esmaltes de nitrocelulose", prosseguiu o Bastos, dando-me um encontrão, "não é um assunto de mercearia a retalho. Tem uma coisa maçadora a que se chama ciência. Sabe o que é? Mas é maçadora para quem prepara as coisas; para nós, que as recebemos preparadas para as aplicarmos, é um alívio e uma alegria. Este BERRYLOID é o produto de longos cuidados feito no primeiro laboratório de tintas, lacas e vernizes. Percebeu? Não é o primeiro produto do género que apareceu, porque o ser primeiro está bem se se trata de estar numa bicha, mas não se se trata de tintas ou de coisas que metem estudo e provas. Não nas tintas e na prática, a última palavra é que é a primeira".

Meu caro Bastos...", disse eu.

"Só BERRYLOID", respondeu o Bastos, virando-me as costas.

"Eu queria agradecer...", prossegui.

"Traga o carro", disse o Bastos.

Levei-lhe o carro e ele pintou-o a BERRYLOID. E não há camurça, nem chuva, nem poeira da pior estrada, que consiga envergonhar esse esmate de aço. Sim: o Bastos tratou-me mal, mas tratou bem a verdade. Não há nada como o BERRYLOID.

... Tanto assim que, quando comprei o meu segundo carro, tratei logo de saber se ele vinha já pintado a BERRYLOID. Ele aí está na base da página e no fim a minha história. Passa-se a camurça, mas é preciso usar óculos fumados: o brilho deslumbra. E, o que é mais, deslumbrará, porque dura.

A minha camurça dura eternamente. O que se tem gasto muito são os óculos fumados; e os elogios dos amigos que vêem os meus carros pintados a BERRYLOID.

Fernando Pessoa in "Contos, Fábulas e outras Ficções"
Este foi o texto escrito por FP para a campanha publicitária de uma marca de tintas para automóvel.

domingo, 8 de novembro de 2009

É POR ISSO QUE EU GOSTO TANTO DESTE SENHOR

O FACTOR VARA

Ultimamente tenho sido industriado num conceito novo sobre a vida que é também uma filosofia de vida: ser "leve". Ser "leve" é o contrário de ser "pesado", é, parece, a capacidade de levar as coisas sempre de uma forma ligeira, de não se preocupar demasiadamente com nada nem dar demasiada importância a coisa alguma. Aconteça o que acontecer, façam o que fizerem, as pessoas "leves" levam tudo na despreocupada: nada deve ser suficientemente grave ou importante para que deixem de rir e de sorrir todo o tempo e em todas as circunstâncias. Trata-se de um conceito moderno e urbano, que a mim me deixa um pouco baralhado, até porque nos últimos anos tenho aprendido a preferir cada vez mais a chuva no campo do que os dias cinzentos na cidade. É verdade que os portugueses sorriem pouco e que sorrir faz bem à saúde e torna as pessoas mais bonitas. Mas lembro-me de a minha mãe dizer que os que vivem eternamente felizes e despreocupados, sempre a rir ou a sorrir, ou são parvos ou são inconscientes. Sim, porque é difícil distinguir onde acabam as virtudes de ser "leve" e começa a estupidez de ser leviano. A fronteira não é clara e há-de ser estreita.
Mas de uma coisa estou certo: só se pode levar as coisas numa "leve" quando se tem condições para tal. Quem vive em quadros de miséria e carência, quem tem da vida urbana uma paisagem de subúrbios desumanizados, quem tem problemas sérios de saúde, quem viu morrer um filho ou alguém muito próximo e amado, quem viu morrer uma após outra todas as ilusões, ou não é "leve" ou anda a Prozac. Poder ser "leve" é um privilégio, não toca a todos.
Mas tenho andado a pensar seriamente no assunto - tentando, claro, pensar de uma forma "leve", para que faça sentido. Muita gente, e leitores meus, acham que eu me indigno vezes de mais com coisas de mais. Não valeria a pena. Há um tipo que escreve sobre mim num blogue e que se irrita sobremaneira com o que ele acha ser a minha indignação permanente e traça de mim um retrato, até físico, que me deixa abalado. Preocupam-me, então, duas coisas: a minha recorrente indignação, tal como ele a descreve, e o facto de a minha indignação acarretar a indignação dele. Vou tentar mudar, a bem dos dois.
Em vez de dizer que as coisas me indignam ou revoltam, vou passar a dizer suavemente que elas me deprimem. Por exemplo: a história de Armando Vara, promovido ao nível máximo de vencimento na Caixa Geral de Depósitos e para efeitos de reforma futura, depois de já estar há dois meses a trabalhar na concorrência do BCP, é uma história que me deprime. Não, não, acreditem que, apesar de isto envolver o dinheiro que pago em impostos, esta história não me revolta nem me indigna, apenas me deprime. E de forma leve. Eu explico.
Toda a 'carreira', se assim lhe podemos chamar, de Armando Vara, é uma história que, quando não possa ser explicada pelo mérito (o que, aparentemente, é regra), tem de ser levada à conta da sorte. Uma sorte extraordinária. Teve a sorte de, ainda bem novo, ter sentido uma irresistível vocação de militante socialista, que para sempre lhe mudaria o destino traçado de humilde empregado bancário da CGD lá na terra. Teve o mérito de ter dedicado vinte anos da sua vida ao exaltante trabalho político no PS, cimentando um currículo de que, todavia, a nação não conhece, em tantos anos de deputado ou dirigente político, acto, ideia ou obra que fique na memória. Culminou tão profícua carreira com o prestigiado cargo de ministro da Administração Interna - em cuja pasta congeminou a genial ideia de transformar as directorias e as próprias funções do Ministério em Fundações, de direito privado e dinheiros públicos. Um ovo de Colombo que, como seria fácil de prever, conduziria à multiplicação de despesa e de "tachos" a distribuir pela "gente de bem" do costume. Injustamente, a ideia causou escândalo público, motivou a irritação de Jorge Sampaio e forçou Guterres a dispensar os seus dedicados serviços. E assim acabou - "voluntariamente", como diz o próprio - a sua fase de dedicação à causa pública. Emergiu, vinte anos depois, no seu guardado lugar de funcionário da CGD, mas agora promovido por antiguidade ao lugar de director, com a misteriosa pasta da "segurança". E assim se manteve um par de anos, até aparecer também subitamente licenciado em Relações Qualquer Coisa por uma também súbita Universidade, entretanto fechada por ostensiva fraude académica. Poucos dias após a obtenção do "canudo", o agora dr. Armado Vara viu-se promovido - por mérito, certamente, e por nomeação política, inevitavelmente - ao lugar de administrador da CGD: assim nasceu um banqueiro. Mas a sua sorte não acabou aí: ainda não tinha aquecido o lugar no banco público, e rebentava a barraca do BCP, proporcionando ao Governo socialista a extraordinária oportunidade de domesticar o maior banco privado do país, sem sequer ter de o nacionalizar, limitando-se a nomear os seus escolhidos para a administração, em lugar dos desacreditados administradores de "sucesso". A escolha caiu em Santos Ferreira, presidente da CGD, que para lá levou dois homens de confiança sua, entre os quais o sortudo dr. Vara. E, para que o PSD acalmasse a sua fúria, Sócrates deu-lhes a presidência da CGD e assim a meteórica ascensão do dr. Vara na banca nacional acabou por ser assumida com um sorriso e um tom "leve".
Podia ter acabado aí a sorte do homem, mas não. E, desta vez, sem que ele tenha sido tido ou achado, por pura sorte, descobriu-se que, mesmo depois de ter saído da CGD, conseguiu ser promovido ao escalão máximo de vencimento, no qual vencerá a sua tão merecida reforma, a seu tempo. Porque, como explicou fonte da "instituição" ao jornal "Público", é prática comum do "grupo" promover todos os seus administradores-quadros ao escalão máximo quando deixam de lá trabalhar. Fico feliz por saber que o banco público, onde os contribuintes injectaram nos últimos seis meses mil milhões de euros para, entre outros coisas, cobrir os riscos do dinheiro emprestado ao sr. comendador Berardo para ele lançar um raide sobre o BCP, onde se pratica actualmente o maior spread no crédito à habitação, tem uma política tão generosa de recompensa aos seus administradores - mesmo que por lá não tenham passado mais do que um par de anos. Ah, se todas as empresas, públicas e privadas, fossem assim, isto seria verdadeiramente o paraíso dos trabalhadores!
Eu bem tento sorrir apenas e encarar estas coisas de forma leve. Mas o 'factor Vara' deixa-me vagamente deprimido. Penso em tantos e tantos jovens com carreiras académicas de mérito e esforço, cujos pais se mataram a trabalhar para lhes pagar estudos e que hoje concorrem a lugares de carteiros nos CTT ou de vendedores porta a porta e, não sei porquê, sinto-me deprimido. Este país não é para todos.
P.S. - Para que as coisas fiquem claras, informo que o sr. (ou dr.) Armando Vara tem a correr contra mim uma acção cível em que me pede 250.000 euros de indemnização por "ofensas ao seu bom nome". Porque, algures, eu disse o seguinte: "Quando entra em cena Armando Vara, fico logo desconfiado por princípio, porque há muitas coisas no passado político dele de que sou altamente crítico". Aparentemente, o queixoso pensa que por "passado político" eu quis insinuar outras coisas, que a sua consciência ou o seu invocado "bom nome" lhe sugerem. Eu sei que o Código Civil diz que todos têm direito ao bom nome e que o bom nome se presume. Mas eu cá continuo a acreditar noutros valores: o bom nome, para mim, não se presume, não se apregoa, não se compra, nem se fabrica em série - ou se tem ou não se tem. O tribunal dirá, mas, até lá e mesmo depois disso, não estou cativo do "bom nome" do sr. Armando Vara. Era o que faltava!
.
Miguel Sousa Tavares in "Expresso" 19.01.2009

domingo, 1 de novembro de 2009

É POR ISSO QUE EU GOSTO TANTO DE LER ESTE SENHOR E NÃO TANTO DE LER O OUTRO SENHOR...

ABRAÃO E ISAAC
Deus mandou Abraão imolar seu único filho, Isaac, e oferecê-lo em holocausto a Ele sobre uma das montanhas de Moriá.  E tomou Abraão a lenha do holocausto e um cutelo e levou seu filho ao lugar que Deus lhe dissera.  E edificou Abraão ali um altar e amarrou Isaac e deitou-o em cima da lenha.  E estendeu Abraão a sua mão com o cutelo para imolar o seu único filho.  Mas um anjo do Senhor lhe bradou desde os céus: "Abraão, Abraão, não estendas a tua mão sobre Isaac e não lhe faças mal.  Agora sei que temes a Deus, pois não lhe negaste teu único filho em holocausto".  E Abraão levantou os olhos e viu um cordeiro que Deus provera para oferecer em holocausto em lugar do seu filho, e assim fez.  E o anjo do Senhor bradou que a semente de Abraão se multiplicaria como as estrelas do céu, e subiria à porta dos seus inimigos, e abençoaria todas as nações da Terra, porque Abraão obedecera à voz de Deus.

Muitos anos depois:
- Eu ainda sonho com aquele dia e acordo tremendo.
- Você era um menino...
- Vejo o cutelo na sua mão, vejo o seu rosto contorcido pela dor, vejo os seus olhos cheios de água...
- Você era um menino...
- Lembro de tudo.  Lembro dos trovões.
- Era a voz do anjo me falando dos céus.
- Não ouvi a voz do anjo.  Ouvi os trovões.  Só você ouviu a voz do anjo.
- Meu filho...
- Eu sei.  Faz muito tempo.  É melhor esquecer.  Mas não consigo esquecer.  Sonho com aquele dia todas as noites e acordo tremendo.
- Você era um menino...

- Me lembro das nuvens escuras.  De uma revoada de pássaros negros.  Pássaros atónitos, chocando-se no ar.  O céu parecendo recuar com o horror da cena: um pai imolando um filho!
- Um sacrifício.  Um ritual necessário de sangue.  A cerimónia inaugural da nossa tribo, com os favores do céu.
- Um horror.
- Uma história muito maior do que a nossa.  Muito maior do que a de um filho imolado.  Hoje sou o pai de nações, o patriarca do mundo, porque obedeci ao Senhor e minha semente foi abençoada.
- Você ficou com o poder, eu fiquei com os pesadelos.
- Nossa tribo foi abençoada.  Da minha semente nasceu a nossa glória.
- Você ficou com a glória, eu fiquei com as marcas das cordas.

- Você viu o meu rosto contorcido de dor, filho.  Viu os meus olhos cheios de água.  Viu que eu estava sofrendo por ter que matá-lo.
-O fio do cutelo encostou na minha garganta.
- Mas eu não o matei!
- Porque Deus não deixou.  Porque Deus mudou de ideia.
- Meu filho...
- Eu sei. Faz muito tempo.  É melhor esquecer.  Vou conseguir sobreviver às minhas memórias e aos meus pesadelos.  Como vocês sobreviveu ao que sabe.
- O que é que eu sei?
- Que deve tudo o que tem, seu poder e sua glória, a um Deus volúvel.  A um Deus incerto do que faz.  A um Deus que volta atrás.  A um Deus inconfiável.
- Ele estava me testando.
- Então é pior.  Um Deus frívolo e cruel.
- Você era apenas um menino...

- Me lembro das nuvens escuras e dos pássaros atónitos.  E do céu recuando diante daquela abominação: um pai matando um filho.  E me lembro dos trovões.
- Era o anjo do Senhor falando comigo.
- Eram trovões.
- Obedeci à voz dos céus porque temo a Deus.
- Mais razão para temê-lo tenho eu, pai, que senti o fio do cutelo na garganta.
- Na origem de todos os povos há uma cerimónia de sangue.
- Então na origem de todos os povos há uma abominação.
- Esta conversa se repete, filho.  Por quanto tempo ainda a teremos?
- Por todos os tempos, pai.
Luis Fernando Veríssimo
in"Expresso" de 03.10.2009


domingo, 11 de outubro de 2009

DESABAFO DE UM BOM MARIDO

Minha esposa e eu temos o segredo pra fazer um casamento durar: duas vezes por semana, vamos a um ótimo restaurante, com uma comida gostosa, uma boa bebida, e um bom companheirismo.
Ela vai às terças-feiras, e eu às quintas.
Nós também dormimos em camas separadas.
A dela é em Fortaleza e a minha em São Paulo.
Eu levo minha esposa a todos os lugares, mas ela sempre acha o caminho de volta. Perguntei a ela onde ela gostaria de ir no nosso aniversário de casamento. ‘Em algum lugar que eu não tenha ido há muito tempo!‘ ela disse.
Então eu sugeri a cozinha.
Nós sempre andamos de mãos dadas. Se eu soltar, ela vai às compras.
Ela tem um liquidificador elétrico, uma torradeira elétrica, e uma máquina de fazer pão elétrica. Então ela disse: ‘Nós temos muitos aparelhos, mas não temos lugar pra sentar‘.
Daí, comprei pra ela uma cadeira elétrica.
Lembrem-se, o casamento é a causa número um para o divórcio. Estatisticamente, 100 % dos divórcios começam com o casamento.Eu me casei com a ‘Sra. Certa’. Só não sabia que o primeiro nome dela era ‘Sempre‘.
Já faz 18 meses que não falo com minha esposa. É que não gosto de interrompê-la. Mas tenho que admitir, a nossa última briga foi culpa minha.
Ela perguntou: ‘O que tem na TV?‘
E eu disse ‘Poeira’.
No começo Deus criou o mundo e descansou. Então, Ele criou o homem e descansou. Depois, criou a mulher.
Desde então, nem Deus, nem o homem, nem o Mundo tiveram mais descanso. (ahusuhsauhsasahuashashu)
Quando o nosso cortador de grama quebrou, minha mulher ficava sempre me dando a entender que eu deveria consertá-lo. Mas eu sempre acabava tendo outra coisa para cuidar antes: o caminhão, o carro, a pesca, sempre alguma coisa mais importante para mim.
Finalmente ela pensou num jeito esperto de me convencer.Certo dia, ao chegar em casa, encontrei-a sentada na grama alta, ocupada em podá-la com uma tesourinha de costura. Eu olhei em silêncio por um tempo, me emocionei bastante e depois entrei em casa.
Em alguns minutos eu voltei com uma escova de dentes e lhe entreguei.’
- Quando você terminar de cortar a grama,’ eu disse, ‘você pode também varrer a calçada.’
Depois disso não me lembro de mais nada. Os médicos dizem que eu voltarei a andar, mas mancarei pelo resto da vida.”O casamento é uma relação entre duas pessoas na qual uma está sempre certa e a outra é o marido…“
Luiz Fernando Veríssimo

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

O AMOR E A SUA CORRESPONDÊNCIA

Diário da Vanessa

A banalização do telemóvel criou a ilusão do objecto omnipresente. Numa posição de omnipresença, um objecto de paixão passou a ter a "obrigação" da resposta imediata a qualquer estímulo, sob pena de provocar o sofrimento do outro.

A angústia da perda passou a estar associada a trivialidades - pode acontecer, vertiginosa, quando se esgotou uma bateria; ocorre quando o amor se passeia displicente em lugares sem rede; e pode disparar a níveis clínicos quando o objecto amoroso, usando um direito inalienável de autodeterminação, decide desligar o telemóvel.

No amor, o telemóvel fez disparar o stress, a ansiedade, as angústias da rejeição e outras malaises de la civilisation. Um telemóvel desligado é uma providência cautelar para uma ruptura. Um presumível sintoma de infidelidade. Um fechar com a porta na cara. Um não, uma nega, uma tampa.

O telemóvel é caro, mas o amor tende a minimizar o impacto económico das medidas a que, no auge da paixão, recorre. E depois há as sms, esse deslumbrante e mais económico instrumento de sedução, mas - também ele - uma grilheta dos amantes. Os segundos de resposta, os minutos, as horas, tudo é contabilizado para avaliar o impacto de um amor.

Institucionalizados os novos rituais do enamoramento, não importa se o objecto costuma estar sequestrado na Biblioteca Nacional ou vive em audiências contínuas com díspares personalidades; se, por qualquer razão que o coração se esforça por desconhecer, não vive com o maldito computadorzinho na mão, em permanente disposição de disparar uma resposta irredutível.

O mail tem um tempo mais distendido, se excluirmos as pessoas cuja profissão as obriga a estar permanentemente em frente do computador. Estas são ainda fustigadas com o monstro do messenger, que, de borla, obriga ao diálogo contínuo.

Mas a minha amiga Vanessa, que num estado de paixão patético tem passado o último mês a escrever mails ridículos, sms ridículas e a contar os segundos da resposta, teve um destes dias um inesperado e surpreendente ataque de felicidade amoroso: recebeu uma carta. Um postal dos correios. Um envelope com selo e tudo. Quando abriu a caixa e viu que não eram só contas, ia desfalecendo.
Uma carta. Uma carta?
Sim, só um grande amor.
Ana Sá Lopes in DN

domingo, 4 de outubro de 2009

O SARAIVA ou O SARAIVA E AS MENINAS

Havia em tempos, no Porto, um rapaz estudante, vindo das províncias do Norte, chamado Saraiva. Este rapaz tornara-se notável entre os companheiros pela certeza da própria perspicácia e a sua igual certeza de seus talentos de declamador. A cada frase, por simples que fosse, que lhe parecesse envolver uma mentira, tomava a mentira como dirigida inutilmente contra a rocha da sua esperteza; e, levando o indicador direito à pálpebra do olho direito, descia-a, no gesto dos álacres, e dizia ao interlocutor, em aviso e ameaça alegre, "Eu sou o Saraiva!" E o outro ficava sabendo que o não conseguira enganar. O indicador erguia-se livre.

Esta ciência certa, considerada pelos outros rapazes como ridícula em si-mesma, levou-os a combinar, servindo-se da preocupação que o Saraiva tinha de declamador, uma cena cómica, destinada a, de vez, pôr o Saraiva em salmoura social. Sabendo o horror do ridículo, que estava latente naquela constante preocupação de que não era enganado, combinaram com várias raparigas das suas relações, de boas famílias e condição decentíssima, uma sessão em casa dos pais de umas delas, para a qual convidariam o Saraiva para declamar. E estava combinado que, apresentado o Saraiva e convidado a mostrar seus dotes de declamador, eles fossem, por fim, reconhecidos com uma gargalhada geral. Desta, fixaram bem, o Saraiva se não se escaparia, e ficariam pagos de tanta irritação de certeza.

Expuseram ao Saraiva que havia várias senhoras que gostariam de o ouvir declamar, pois lhes constara o que valia na matéria, e com ele estabeleceram que o apresentariam em casa dessas senhoras, podendo ele aparecer, em tal noite, e a tais horas.

Grato, o Saraiva acedeu e a combinação ficou feita. Sucede, porém, que, chegado a casa, começou a meditar no convite, e, desde logo, a desconfiar dele. "Ali há coisa", pensou o Saraiva. E, sozinho, diante do espelho, levou o indicador direito ao olho direito, no gesto baixante da esperteza, "Mas eu sou o Saraiva!", apontou para si mesmo.

E meditou, "Que diabo será a partida?". Não tardou que descobrisse. Tratava-se de encher uma casa qualquer de uma quantidade de meretrizes, dispostas com aparência de senhoras e meninas, e de o convidar (a ele Saraiva!) para ir fazer diante delas o papel de recitador. Conclusão lógica, conclusão natural. E o Saraiva tomou mentalmente as suas precauções.

Chegou a noite, e chegou o Saraiva. E, junto com os vários camaradas, foram dar à casa onde estavam reunidas as senhoras todas que os esperavam. Para entrada e deslumbramento, os apresentantes, aberta subitamente a porta da sala, quese revelou cheia de senhoras, apresentaram, "Minhas senhoras, o Sr. Saraiva!", com o ar de quem apresenta um dos homens mais célebres do mundo.

Então o Saraiva, álacre, deu um pulo para o meio da sala, e braços abertos, gritante e alegre, bradou para as senhoras todas, "Eh, putedo!"

E depois, voltando-se a rir para os apresentantes lívidos, inclinou a cabeça e levou à eterna pálpebra direita o eterno indicador direito, "Vocês esqueceram-se que eu sou o Saraiva"...



Moralidade:

1. Não ser Saraiva.

2. Na dúvida ser Saraiva, porque aqui o Saraiva foi o parvo e os outros é que ficaram atrapalhados.

Quando uma nação crê firmemente em si mesma, humilha os outros ainda quando se engana e é ridícula. Coisa por cousa, mais vale ser Saraiva. Porque é preciso não esquecer o resultado prático de tudo isto. As raparigas ficaram insultadas, os rapazes ficaram envergonhados: quem ficou vencedor foi o Saraiva.

Fernando Pessoa in "Contos, Fábulas & outras ficções"

domingo, 20 de setembro de 2009

O SEGREDO DE ROMA

Quando César chegou tarde ao fim do campo de ....., ergueram rápidos perante ele a cabeça de Pompeu.
César abriu em lágrimas, e os que estavam pasmaram. O que erguera a cabeça, baixou-a um pouco; estava atónito, e além disso ela pesava, porque ele a erguera a braço largo.
- Assim, que vale uma vitória? - perguntou César.
- É certo - respondeu o que o seguia, pois não sabia que dizer.
E César continuou. "Foi meu amigo, meu companheiro, era romano e soldado..."
E depois disse, "Cheguei tarde..."
O companheiro esboçou um gesto sem nada, e César voltou as costas curvas de dor.
"Cheguei tarde", repetiu. "Queria tê-lo eu matado com as minhas mãos".


Moralidade:
Cuidado com as lágrimas, quando são estadistas que as choram.
Fernando Pessoa in "Contos, Fábulas & outras ficções"

domingo, 13 de setembro de 2009

EM TEMPO DE CAMPANHA ELEITORAL: INDECISOS

A categoria mais interessante das sondagens é a dos indecisos. Estes são os eleitores mal dispostos e difíceis que dão cabo da cabeça dos candidatos e depois, só para chatear, abstêm-se.

O Indeciso típico é um indivíduo inteligente, exigente e quase impossível de contentar. Irrita-se, logo para começar com o facto de todos os candidatos quererem ser presidentes. Se, entre os candidatos à Presidência, houvesse um que não tivesse cometido a deselegância e a ganância de querer ser Presidente, seria nesse que ele votaria. Não sendo assim, não. Tal como Groucho Marx, que se recusava a entrar para qualquer clube que fosse capaz de o admitir como sócio, o Indeciso é incapaz de votar em quem se candidate a seja o que for. Qualquer mãe, aliás, ao ouvir da boca dum filho "Ó mãe, eu quando crescer, quero ser Presidente da República", já sabe a galheta que lhe deve assentar. Querer "presidir" já não é bom. Presidir à "República" ainda é pior.

O indeciso fica positivamente alterado com a lata de todos os candidatos quererem ser, não só "Presidentes", e não só da "República", mas ainda por cima, Presidentes de todos os portugueses, conhecendo (só ele!) muitos portugueses dos quais não apetece rigorosamente nada ser presidente. E, sendo assim, o Indeciso só votaria num candidato que tivesse a coragem de dizer "Eu quero ser presidente da maior parte dos portugueses, e os outros que se amanhem", ou, melhor ainda, "Eu só quero ser presidente de uns vinte ou trinta mil portugueses".

Quanto ao Indeciso, se fosse Presidente, sê-lo-ia só de uma mão-cheia de amigos. Não quereria, por exemplo, ser Presidente de nenhum dos candidatos. Podia, finalmente, achar graça a um candidato com originalidade bastante para querer ser presidente de todos os dinamarqueses. Dos portugueses, indiscriminadamente, é que não.

O Indeciso também se enerva com o facto de todos os candidatos dizerem que são "rigorosamente independentes", porque sabre que os políticos são como os bancos: por maior que seja a sede, não se safam sem dependências.

Votaria, isso sim, num candidato que não fosse "rigorosamente independente" mas, vá lá, mais ou menos independente, ou um bocadinho de nada independente, ou - melhor que tudo - um que confessasse ser totalmente dependente, do partido, da esposa, do álcool e das venetas que lhe passassem pela cabeça.

O Indeciso quando ouve um candidato dizer que é independente, responde sempre "Ai és? Olha, eu também sou" e não vota em nenhum.

Outtra coisa que o incomoda é o facto de todos os candidatos, durante os debates, terem dito que têm "o maior respeito e simpatia" uns pelos outros. Se se respeitam todos tanto, e se simpatizam tanto uns com os outros, pergunta ele, porque é que não se unem todos numa Grande Frente "Respeito, Simpatia e Democracia" para garantir 100 por cento dos votos? O Indeciso votaria no candidato que confessasse ter, não maior - porque é que há-de ser logo o maior?- mas outra quantidade qualquer de respeito. Por exemplo, quem dissesse "Tenho por sí o maior respeito, mas quanto a simpatia, lamento mas é rigorosamente néribite". Ou, também dava "Só Deus sabe o quanto eu deliro de simpatia por si, mas respeitinho é que não, desculpe lá".

Outra coisa que maça o Indeciso é a questão dos "passados de democrata" que tem servido para fazer debates como quem pede bifes, mais ou menos bem passados, num restaurante. "Como quer o candidato? Mal ou bem passado?" "Olhe, era passado de democrata, se fizer o favor". O Indeciso votaria naquele que dissesse "Bem sei que nem sempre me tenho batido pela democracia mas, de futuro, prometo ir fazendo os possíveis...", ou noutro que confessasse "Sim, é verdade que quando era novo batia-me bastante pela democracia, mas ultimamente tem-me faltado a ontade, sabe?".

O Indeciso também não acha graça à questão das voltas. Na volta, não vota em nenhum. No fundo, a única coisa que lhe apetece é abster-se na primeira volta, para depois vir-lhe a vontade inequívoca de votar num dos candidatos que não passaram à segunda. E a única consolação que lhe resta é a de saber, de antemão, que, depois de estar tudo decidido, vai ter um grau de satisfação de setenta e cinco por cento. Isto porque, qualquer que seja o resultado, três candidatos têm obrigatoriamente de perder. Para ele, 3 contra 1 não é nada mau. Melhor, só se perdessem os quatro.

O Indeciso é quem engata as sondagens todas. Perguntam-lhe em quem vai votar, e ele diz "Voto no candidato do subdesenvolvimento" ou "Voto naquele que já cá esteve em causa por causa de uma cómoda do século XVIII".

Quando lhe perguntam quem, ele responde sempre "Isso agora é que eu não digo - mas pode pôr aí que estou decidido". E o pior é que está mesmo.

Miguel Esteves Cardoso in "A causa das coisas"



quarta-feira, 22 de julho de 2009

INSTANTE DA MINHA ESTANTE

"Aquele que envelhece e que segue atentamente esse processo poderá observar como, apesar de as forças falharem e as potencialidades deixarem de ser as que eram, a vida pode, até bastante tarde, ano após ano e até ao fim, ainda ser capaz de aumentar e multiplicar a interminável rede das suas relações e interdependências e como, desde que a memória se mantenha desperta, nada daquilo que é transitório e já se passou se perde."

“A década que medeia entre os 40 e os 50 anos é para as pessoas temperamentais, para os artistas, sempre uma época crítica, de inquietação e frequente insatisfação, uma altura em que é comum haver dificuldades em lidar com a vida e com nós mesmos. Depois disso, sobrevêm tempos de acalmia. Pude experimentar isso não só em mim mesmo, como também o observei em muitos outros. Por muito bela que seja a juventude, uma época de efervescência e de combates, também o envelhecer e o amadurecimento possuem a sua beleza própria e proporcionam felicidade.
Com 50 anos, o ser humano começa a pôr de lado certas criancices como a obtenção de fama, reputação e estatuto, passando a olhar retrospectiva e desapaixonadamente a sua vida passada. Aprende a esperar, a calar-se, a escutar; ainda que porventura alguma dessas virtudes venha a ser corrompida por quaisquer debilidades ou por algumas fraquezas, nunca deixará de considerar proveitoso este processo.”

É, sem dúvida, um livro de leitura obrigatória, pelos seus ensinamentos e reflexões.
Sei que estou no bom caminho para não me tornar numa velha amarga. Só isso é digno de pena.

terça-feira, 14 de julho de 2009

PORQUE EU GOSTO DE TIM BURTON...

Não vou, de todo, perder ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS.
Olhem-me só para a Helena Bonham Carter como Rainha de Copas e para o meu mais-que-tudo Johnny Depp como Chapeleiro Maluco?
Não estão um must?



Também gosto do que Tim Burton escreve:


A MORTE MELANCÓLICA DO RAPAZ OSTRA

Nas dunas, pediu-lhe casamento,
à beira-mar se casaram.
Na Ilha de Capri celebraram
esse tão grande momento.

À ceia jantaram um prato sobejo:
uma bela caldeirada de peixe e marisco.
E, enquanto ele saboreava o petisco,
no coração ela pediu um desejo.

O seu desejo tornou-se realidade: teve um bébé.
Mas seria um ser humano?
Pois é,
na verdade,
tinha dez dedos nos pés e nas mãos,
tinha visão e circulação.
Podia ouvir, podia sentir,
mas seria normal?
Isso não.

Este nascimento aberrante, este cancro, esta praga
foi o princípio e o fim de toda uma saga.

Ela zangou-se com o doutor:
"Esta criança não é minha.
Cheira a maresia, a salmoura e a tainha."

"Olhe que tem sorte, ainda a semana passada
tratei de uma miúda com crista e rabo de pescada.
Se o seu filho é meio ostra
não me venha acusar...
... já pensou por acaso
numa casinha à beira-mar?"

Sem saber que lhe chamar,
chamaram-lhe Alves,
ou, às vezes,
"aquela coisa da espécie dos bivalves."

Toda a gente se perguntava mas ninguém sabia
quando é que da concha o Rapaz Ostra saía.

Quando os quatro gémeos Lopes um dia o foram ver,
chamaram-lhe amêijoa e desataram a correr.

Num dia azarado,
Alves ficou encharcado
à esquina da rua Miramar.

Cabisbaixo,
viu a chuva rodopiar
pela sarjeta abaixo.

Na auto-estrada, a sua mãe,
à beira de um esgotamento,
esmurrava o painel dos instrumentos
não conseguia conter
a dor crescente,
a frustração
que a fazia sofrer.

"Olha, querido", disse ela,
"isto não é para ter piada,
mas eu já não pesco nada
e acho que é do nosso filho.
Não gosto de o dizer, pois sou uma mulher que te ama,
mas tu culpas o nosso filho pelos teus problemas na cama."

Ele bem se aplicou, com muito denodo;
tentou salvas e unguentos
que lhe faziam comichões,
tintura de iodo,
mezinhas e poções.
Coçou-se e sangrou e esmifrou-se todo.

Até que o médico diagnosticou:
"Eu não sei de ciência,
mas a cura do seu problema pode ser o que o causou.
Dizem que comer ostras aumenta a potência:
talves se comer a criança
fique cheio de pujança."

Ele foi pela calada
estava escuro como o breu.
Tinha a testa suada
e nos lábios - uma mentira ensaiada:
"Filho, és feliz? Não me quero intrometer,
mas nunca sonhas com o Céu?
Nunca quiseste morrer?"

Alves pestanejou duas vezes
mas não ripostou.
O pai tacteou o punhal
e a sua gravata aliviou.

Pegando no filho ao colo,
Alves pingou-lhe a lapela.
Levando a concha aos lábios,
despejou-o pela goela.

Depressa o enterraram na areia junto ao mar
- uma prece rezaram, uma lágria mderramaram -
e para casa voltaram à hora do jantar.

A campa do Rapaz Ostra foi marcada com uma cruz.
Palavras escritas na areia
prometiam a salvação de Jesus.

Mas a sua memória perdeu-se numa onda de maré-cheia.

De volta à paz do lar,
ele beijou-a arfar:
"Que tal uma rapidinha?"
"Mas desta vez", sussurou ela, "quero uma rapariguinha."


Gostaram? querem mais? Comprem o livro. Lê-se em menos de meia-hora!

domingo, 5 de julho de 2009

AINDA HÁ PRÍNCIPES ENCANTADOS!

Se está à espera do Dia dos Namorados para arranjar um, não fique sentada... Faça como uma amiga minha que cada vez que sai do carro, vira o retrovisor para o lado do condutor, retoca o batom e diz com uma convicção demolidora que o Príncipe pode estar em qualquer lado. E pode mesmo. É uma questão de fé, totalmente arbitrária e aleatória, mas pode acontecer. Até porque nós, os extraordinários, somos poucos, mas andamos por aí. Isto é o que diz outro amigo meu, que por acaso é mesmo extraordinário e já encontrou a pessoa certa, pelo menos por enquanto. Foi ele que um dia me explicou o que era esse maravilhoso conceito da pessoa certa. A pessoa certa não é a mais inteligente, a que nos faz as mais belas declarações de amor, a que nos jura a paixão maior ou nos diz que nunca se sentiu assim. Nem a que se muda para nossa casa ao fim de três semanas e planeia viagens idílicas ao outro lado do mundo. A pessoa certa é aquela que quer mesmo ficar connosco. Tão simples quanto isto. Às vezes demasiado simples para as pessoas perceberem. O que transforma um homem vulgar no nosso príncipe é ele querer ser o homem da nossa vida. E há alguns que ainda querem. Os verdadeiros Príncipes Encantados não têm pressa na conquista porque como já escolheram com quem querem passar o resto da vida, têm todo o tempo do mundo; levam-nos a comer um prego no prato porque sabem que no futuro nos vão levar à Tour d'Argent; ouvem-nos com atenção e carinho porque se querem habituar à música da nossa voz e entram-nos no coração bem Devagar, respeitando o silêncio das cicatrizes que só o tempo pode apagar. Podem parecer menos empenhados ou sinceros do que os antecessores, mas aquilo a que chamamos hesitação ou timidez talvez seja apenas uma forma de precaução para terem a certeza que não se vão enganar. O Príncipe Encantado não é o namorado mais romântico do mundo que nos cobre de beijos; é o homem que nos puxa o lençol para os ombros a meio da noite para não nos constiparmos ou se levanta às três da manhã para nos fazer um chá de limão quando estamos com dores de garganta. Não é o que nos compra discos românticos e nos trauteia canções de amor no voice mail, é o que nos ouve falar de tudo, mesmo das coisas menos agradáveis. Não é o que diz Amo-te, mas o que sente que talvez nos possa amar para sempre. Não é o que passa metade das férias connosco e a outra metade com os amigos; é que passa de vez em quando férias com os amigos. O Príncipe que sabe o que quer, não é o melhor namorado do mundo; é o marido mais porreiro do mundo, porque não é o que olha todos os dias para nós, mas o que olha por nós todos os dias. Que tem paciência para os meus, os teus, os nossos filhos e que ainda arranja um lugar na mesa para os filhos dos outros. Que partilha a vida e vê em cada dia uma forma de se dar aos que lhe são próximos. Que ajuda os mais velhos a fazer os trabalhos de casa e põe os mais novos a dormir com uma história de encantar. Que quando está cansado fica em silêncio, mas nunca deixa de nos envolver com um sorriso. Não precisa de um carro bestial, basta-lhe uma música bestial para ouvir no carro. Pode ou não ter moto, mas tem quase sempre um cão. Gosta de ler e sai pouco à noite porque prefere ficar em casa a namorar e a ver o Zapping. Cozinha o básico, mas faz os melhores ovos mexidos do mundo e vai à padaria num feriado. O Príncipe é um Príncipe porque governa um reino, porque sabe dar e partilhar, porque ajuda, apoia e nos faz sentir que somos mesmo muito importantes. Claro que com tantos sapos no mercado, bem vestidos, cheios de conversa e tiradas poéticas, como é que não nos enganamos? É fácil. Primeiro, é preciso aceitar que às vezes nos enganamos mesmo. E depois, é preciso acreditar que um dia podemos ter sorte. E como o melhor de estar vivo é saber que tudo muda, um dia muda tudo e ele aparece. Depois, é só deixar ficá-lo um dia atrás do outro... e se for mesmo ele, fica. (Artigo de uma revista não identificado)

domingo, 10 de maio de 2009

TENHAM UM BOM ALMOÇO

Em Portugal o caso mais sério - e a cerimónia mais solene - é o almoço.
Serão muito poucos os países em que se almoça tão bem e tão compenetradamente como cá. É à mesa, e na cozinha, que os portugueses realmente empreendem o épico da raça. Na preparação e no despacho da comida, trabalham mais depressa e bem do que em qualquer outro ramo de actividade.
Na História Portuguesa, os grandes acontecimentos assinalam-se através do sufixo -ada: a Abrilada, a Setembrada, e a mais empolgante de todas, a Jantarada. Tal como qualquer cruzada, ela serve para absorver a agressividade, a sexualidade e a afectividade. A agressividade com que dantes se partia para cascar em mouros e castelhanos hoje é substituida pela violência com que os portugueses se batem com umas lulas ou atacam uma chanfana de cabrito. Ao conseguir empachar uma travessa grotescamente cheia, ou dar cabo de uma panelão inteiro, alcança-se entre nós uma sensação cristã de vitória.
Em matéria de afectividade, os portugueses guardam aos víveres uma ternura igual àquela que outros povos destinam ao Bambi. O português não chora tanto ao ver morrer a mãe do Bambi como choraria se ela tivesse estufada em vinho tinto com batatinhas a murro. Por muito estranho que pareça, a utilização dos diminutivos não goza de qualquer correspondência com as dimensões do prato. Assim, "um belo peixinho" não é uma sardinha -é pelo menos um tamboril com três quilos. Um "arrozinho" deixa de ser um "mero arroz" só quando a capacidade da panela, e o corpo de baile de lagostins, ultrapassa a lotação média do São Luís. A própria etimologia de "Almoço" indica a raiz deste paradoxo. Segundo José Pedro Machado, deriva de "admordiu", significando "bocado". Daí talvez, também a mania portuguesa de usar as palavras "bocado" e "bocadinho" para dar a ideia de "granel", como é o caso na frase: "Ó Dona Alzira, ponha também um bocadinho de brócolos". Dizer que os portugueses, quando almoçam, comem somente "um bocado" não é muito diferente de quem descreve a Etiópia como um país a sofrer de larica.

Outra autoridade, o Dr. António Gerado da Cunha, dá a origem verbal - "admoredere" - significando "começar a morder". E depois de começar a morder ... vem o resto. Na sua forma mais pura, a sequência alimentícia portuguesa é altamente complexa, confundindo tanto os estrangeiros como os accionistas da Diese. Começa com um aperitivo, para aguçar um dente que está perfeitamente vampiresco desde o meio-dia. O aperitivo serve para camuflar a lendária bulímia nacional: como um veterinário que se desse ao cuidado de servir um Martini a um rafeiro já escanzelado da fome mais canina que há. Depois do aperitivo, como "a comidinha demora", pedem-se "umas coisinhas para petiscar". Os portugueses não petiscam em vez de almoçar: petiscam porque vão almoçar. Chegam então aquelas partes do porco que servem para a locomoção, para o olfacto e para a audição, todas elas recicladas num molhinho com pesados pêsames de alho e coentrada. Juntamente com uns queijinhos para "fazer boca", e umas azeitioninhas para fazer companhia, servem para "ir comendo". "Ir comendo", como já sabemos, não conta como comer. A quantidade colossal de pão que se consome ao mesmo tempo - as chamadas "buchas" - também não conta, porque se destina a um fim essencialmente humanitário, que é "fazer a cama ao vinho".

A função da bucha é clara. Come-se uma bucha para fazer a cama ao vinho. Fica-se embuchado. Para desembuchar, bebem-se uns copos. Depois como se beberam muitos copos, para não ficar embriagado, comem-se mais umas lecas para "ensopar" aquele vinho todo. E fica-se empastelado, criando novamente a imperiosa necessidade do vinho.É o que se chama entre nós um círculo delicioso.

Tecnicamente, os petiscos terminam quando principia a refeição propriamente dita (o "conduto"). Relembrnado as lendárias palavras do português a quem perguntaram se era capaz de comer um cabrito inteiro - "só se for com muito pão". É sempre. Seja com o "pratinho" (equivalente a uma dose individual CEE), seja o "prato" (2 CEE), seja a meia-dose (3 CEE) seja a "dose" (o suficiente para alimentar, durante um fim-de-semana, a população inteira do Liechenstein), é sempre com muito pão.

Em português um "bom garfo" não é um garfo comprado no Braz & Braz, nem um "bom copo" se refere à Atlantis Cristal. Quem se alaparda à mesa é um herói, nesta tera onde a gordura é formosura e um gordo não é gordo, mas "forte". A esta força contrapõe-se a "fraqueza" de quem não come e toda a série de nomes que se chamam a quem é frugal na paparoca: debiqueiro, furão lambisqueiro, lanquinhento, penisqueiro. Aqui, os que não respeitam os compromissos rácicos de demolição agro-pecuária, são vistos como estranhos - são "esquisitos". Quem come pouco "passa por baixo da mesa" ou sofre de um vergonhoso tédio chamado "fastio".

Voltando à mesa, onde os convivas já entoiriram até aos colarinhos, não se julgue que o almoço terminou. Impõe-se agora -precisamente- uma sopinha (talvez de grão, certamente com massa). Para quê? - poder-se-á perguntar. Para "assentar". Os portugueses nunca comem ou bebem porque são hiperfagicamente gulosos - é sempre para qualquer coisa. É como se estivessem abnegadamente a servir os interesses e preceitos de uma antiquíssima e lusíssima "alimentação racional" - assim chamada porque recomenda que se coma à razão de dez carcaças de pão por cada carcaça animal. As batatas e a salada são, evidentemente, "à parte".

Depois dos petiscos para abrir o apetite, do conduto para dar força, do pão para fazer a cama, do arrozinho para ensopar e da sopa para assentar, vem a sobremesa para "tirar o gosto da sopa", a fruta para "desenjoar" e o bagacinho para "fazer a digestão". A comida em Portugal só não é para brincar. Para os franceses, é uma arte. Para nós é canja.

E uma canjinha - não ia agora? Então isso é coisa que se pergunte?
Miguel Esteves Cardoso in "A causa das coisas"

domingo, 3 de maio de 2009

MÃE

[...]

A origem da palavra, aparentemente, é uma só. Em latim 'mãe' é mater, em grego, é meter, em alemão mutter, em inglês mother, em sânscrito ma ou mata, e tudo deve ter começado por um dos sons fundamentais da espécie, que é o do bébé pedindo para mamar. A razão da identificação universal do som 'm' com a mãe a mama da mãe é um daqueles segredos que só os recém-nascidos poderiam revelar, mas eles não falam. Ou falam mas a gente não entende.


Somos 'mamíferos' por um determinismo fónico, e quer você seja irlandês (mathai) ou russo (mat) chamava sua mãe ou pedia o seu peito da mesma maneira, ou quase.


Do latim mater veio, além de 'mãe', 'madre', 'mére' e a sequência 'matriz', 'matrimónio' e 'maternidade', ou, de uns tempos para cá, 'maternidade' e depois 'matrimónio'. Do grego meter veio, entre muitas outras coisas 'metrópole' (cidade-mãe) e 'metropolitano'. Da próxima vez que estiver dentro de um metro, portanto, você pode comparar esta experiência com a de estar dentro da sua mãe e concluir que dentro da mãe estava mais confortável mas não podia descer onde quisesse.


Mater também é a origem de 'matéria', coisa sólida. O tronco do qual nós somos os ramos, a madeira da nossa árvore genealógica. Você que adora ambientes forrados com madeira, que os acha aconchegantes e até maternais, só diz isso porque a madeira não é a sua mãe.


'Matriz' é uma forma, um molde -como o ventre materno. Matrix, em latim, era uma fêmea reprodutora, e até hoje se usa 'matriz' neste sentido na pecuária. 'Matriz' também é a mãe das igrejas. Nos tempos da Igreja Católica, a Mater Ecclesia, a parte central se chama 'nave', que pode vir do grego naus ou do latim navis, já que uma das conõtações simbólicas da Igreja é a barca das almas, a arca da salvação, mas também pode ser do sânscrito nabbhis, de onde vem o inglês navel ou o popular 'umbigo'. De qualquer maneira, tem mãe no meio.


Viva elas, portanto. Se não fossem elas, não estaríamos aqui. Pois não há um entre nós que não seja um pequeno, um médio, um grande ou grandessíssimo filho da mãe.

mãe é mãe :)

quinta-feira, 2 de abril de 2009

HOJE É DIA INTERNACIONAL DO LIVRO INFANTIL


Quando, numa biblioteca, numa livraria, em casa de um amigo, o livro nos chama a atenção, pegamos nele, abrimo-lo devagar e, com ele poisado sobre a palma da mão esquerda, folheamo-lo muito naturalmente com a mão direita. Parece que é assim que se faz, não é?
Os dedos, as costas da mão, que lhe alisam as páginas e, num voo leve, os olhos que correm pelo formigueiro das linhas e poisam numa palavra aqui, numa frase além, e seguem adiante -os dedos, as costas das mãos e os olhos, neste primeiro relance estudam o livro por dentro. [...]
Folhear um livro é espreitar para dentro de uma caixinha sem chave, uma caixinha ao alcance das mãos e dos olhos. Não há segredos.
- Que tens tu guardado para me dar? - perguntamos nós ao livro.
Aí o livro conta, não pára de contar o que dentro dele tem guardado para nós.
António Torrado, O Manequim e o Rouxinol


A comemoração nesta data surgiu como homenagem a Hans Christian Andersen, que nasceu neste dia em 1805. Ao acrescentar o elemento lúdico às suas histórias, como bichos e objectos falantes, ele mudou o rumo da literatura infantil.
Eu, ainda hoje, compro livros de literatura infantil para mim; vou a caminho de meio século de idade.

domingo, 29 de março de 2009

A FALÊNCIA

A minha primeira (e aliás única) grande crise empresarial, ocorreu em 1946, ou 47. É difícil de precisar a data de um tal desaire. Foi o fim de uma carreira, quiçá o esboroar de uma vocação precoce.
Eu tinha oito ou nove anos, a minha sócia, Paia de seu cognome por ter Sampaio no seu apelido, que é, e era, um apelido respeitabilíssimo, nove ou dez.
Mas não pensem que isto é um texto jocoso. As coisas do dinheiro são sempre sérias, e nós éramos empresárias seriíssimas. Não esbanjávamos o capital, não tínhamos gestos sumptuários, nem negócios ocultos.
Paia era loirita, com a pele lisa e rosada de uma bolacha araruta e a mesma rotundidade. Eu já deixara de ser, loirita, e rotunda, nem nesse tempo fui. Eu talvez fosse um pouco mais alta, ela um pouco mais para os lados. Éramos mais que amigas, éramos sócias, leais e compenetradas.
Foi assim e dêem-lhe o desconto, pois quem conta um conto, mesmo verdadeiro, acrescenta um ponto.
Foi assim o empreendimento e a crise. O descalabro inesperado e acaso injusto, como tantos hoje em dia.
Éramos ambas alunas de um colégio de religiosas, sito à Lapa. Severo e mimado, carinhoso até e paciente com as mais pequenas.
Paia e eu não éramos companheiras de carteira, nem tal coisa havia. As carteiras eram individuais, com uma tampa de madeira que se levantava para inspeccionar a ordem dos conteúdos: lápis de cor, cadernos, livros escolares com meninos e meninas de braço estendido, as meninas a varrer e os meninos a aprender. Nada de jogos, nem de brinquedos. A caixa com tampa corredia, rectangular e comprida como uma régua, que continha o lápis, a borracha e a primeira caneta que esborratava os dedos, foi a nossa primeira Caixa Geral de Depósitos. Mas já lá vamos.
Tinha o colégio, espaçoso e airado, duas entradas. Uma, um portão de ferro imponente, aos fundos do jardim e que só era aberto por ocasião de grandes festejos e visitas de pais; a outra, virada à Rua de S. Félix, era uma aberta na porta-cocheira por onde entrávamos e saíamos todas, grandes e pequenas.
Ora, na esquina mais abaixo, havia uma mercearia. E dentro da mercearia uns grandes frascos de vidro, com chupa-chupas deslumbrantes, vestidos ou despidos. Finos como um lápis de cor, de todas as cores, cada cor seu paladar, estavam embrulhados em papel vegetal transparente, com uma asinha em cada ponta, enroscada como um pequeno leque. Uma graça e uma tentação prestigiosa de exibir nos recreios. Não deixavam de ter os seus perigos, de tangerina ou de limão, ou morango: iam afilando à medida que eram sugados e, às tantas-quantas, estava-se com um estilete entalado entre a língua e o palato.
Todas tínhamos semanadas; nem lembro bem para quê. Uns bolinhos de ovos, ou seriam bolas-de-Berlim à venda no grande pátio, durante os recreios. Creio que era mais uma questão de status, ter moedas no bolsinho do bibe.
Mas chupas, não havia.
A escassez de tal bem, vinha da trajectória de cada uma, não da carência de capital. Trajectória e meios de transporte. Vinham de carro ou na camionette.
A Paia e eu vínhamos a pé, ela com a criada (nesse tempo não havia empregadas) e eu de baixo, das Janelas Verdes, com a ordenança de meu pai.
Resolvemos, não lembro de qual a iniciativa privada, comprar grosas para revender nos recreios a lucros de tostões. Tudo às claras, um negócio limpo.
Ora um dia, uma das freiras, mais graduada ou mais avisada, veio indagar daquela chusma de meninas à volta dos nossos bibes enfunados, quais rainholas santas, da mercadoria.
Um drama. Mães chamadas à sala de visitas da Superiora, a de Paia chorosa, a minha furiosa. Aquilo era lá coisa de meninas educadas. Uma vergonha.
A mercadoria e o capital sonegados, duas semanas sem semanada, uma sem local de trabalho da empresa, o recreio. E os nossos armazéns e cofres, pastas escolares e carteiras espoliados de bens e capital acumulado.
- Mas para que queriam as meninas o dinheiro?
Paia, tão perplexa como eu, mas humilhada e ofendida, respondeu com toda a dignidade:
- Para comprar mais chupas.
Maria Velho da Costa