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domingo, 1 de novembro de 2009

É POR ISSO QUE EU GOSTO TANTO DE LER ESTE SENHOR E NÃO TANTO DE LER O OUTRO SENHOR...

ABRAÃO E ISAAC
Deus mandou Abraão imolar seu único filho, Isaac, e oferecê-lo em holocausto a Ele sobre uma das montanhas de Moriá.  E tomou Abraão a lenha do holocausto e um cutelo e levou seu filho ao lugar que Deus lhe dissera.  E edificou Abraão ali um altar e amarrou Isaac e deitou-o em cima da lenha.  E estendeu Abraão a sua mão com o cutelo para imolar o seu único filho.  Mas um anjo do Senhor lhe bradou desde os céus: "Abraão, Abraão, não estendas a tua mão sobre Isaac e não lhe faças mal.  Agora sei que temes a Deus, pois não lhe negaste teu único filho em holocausto".  E Abraão levantou os olhos e viu um cordeiro que Deus provera para oferecer em holocausto em lugar do seu filho, e assim fez.  E o anjo do Senhor bradou que a semente de Abraão se multiplicaria como as estrelas do céu, e subiria à porta dos seus inimigos, e abençoaria todas as nações da Terra, porque Abraão obedecera à voz de Deus.

Muitos anos depois:
- Eu ainda sonho com aquele dia e acordo tremendo.
- Você era um menino...
- Vejo o cutelo na sua mão, vejo o seu rosto contorcido pela dor, vejo os seus olhos cheios de água...
- Você era um menino...
- Lembro de tudo.  Lembro dos trovões.
- Era a voz do anjo me falando dos céus.
- Não ouvi a voz do anjo.  Ouvi os trovões.  Só você ouviu a voz do anjo.
- Meu filho...
- Eu sei.  Faz muito tempo.  É melhor esquecer.  Mas não consigo esquecer.  Sonho com aquele dia todas as noites e acordo tremendo.
- Você era um menino...

- Me lembro das nuvens escuras.  De uma revoada de pássaros negros.  Pássaros atónitos, chocando-se no ar.  O céu parecendo recuar com o horror da cena: um pai imolando um filho!
- Um sacrifício.  Um ritual necessário de sangue.  A cerimónia inaugural da nossa tribo, com os favores do céu.
- Um horror.
- Uma história muito maior do que a nossa.  Muito maior do que a de um filho imolado.  Hoje sou o pai de nações, o patriarca do mundo, porque obedeci ao Senhor e minha semente foi abençoada.
- Você ficou com o poder, eu fiquei com os pesadelos.
- Nossa tribo foi abençoada.  Da minha semente nasceu a nossa glória.
- Você ficou com a glória, eu fiquei com as marcas das cordas.

- Você viu o meu rosto contorcido de dor, filho.  Viu os meus olhos cheios de água.  Viu que eu estava sofrendo por ter que matá-lo.
-O fio do cutelo encostou na minha garganta.
- Mas eu não o matei!
- Porque Deus não deixou.  Porque Deus mudou de ideia.
- Meu filho...
- Eu sei. Faz muito tempo.  É melhor esquecer.  Vou conseguir sobreviver às minhas memórias e aos meus pesadelos.  Como vocês sobreviveu ao que sabe.
- O que é que eu sei?
- Que deve tudo o que tem, seu poder e sua glória, a um Deus volúvel.  A um Deus incerto do que faz.  A um Deus que volta atrás.  A um Deus inconfiável.
- Ele estava me testando.
- Então é pior.  Um Deus frívolo e cruel.
- Você era apenas um menino...

- Me lembro das nuvens escuras e dos pássaros atónitos.  E do céu recuando diante daquela abominação: um pai matando um filho.  E me lembro dos trovões.
- Era o anjo do Senhor falando comigo.
- Eram trovões.
- Obedeci à voz dos céus porque temo a Deus.
- Mais razão para temê-lo tenho eu, pai, que senti o fio do cutelo na garganta.
- Na origem de todos os povos há uma cerimónia de sangue.
- Então na origem de todos os povos há uma abominação.
- Esta conversa se repete, filho.  Por quanto tempo ainda a teremos?
- Por todos os tempos, pai.
Luis Fernando Veríssimo
in"Expresso" de 03.10.2009


domingo, 11 de outubro de 2009

DESABAFO DE UM BOM MARIDO

Minha esposa e eu temos o segredo pra fazer um casamento durar: duas vezes por semana, vamos a um ótimo restaurante, com uma comida gostosa, uma boa bebida, e um bom companheirismo.
Ela vai às terças-feiras, e eu às quintas.
Nós também dormimos em camas separadas.
A dela é em Fortaleza e a minha em São Paulo.
Eu levo minha esposa a todos os lugares, mas ela sempre acha o caminho de volta. Perguntei a ela onde ela gostaria de ir no nosso aniversário de casamento. ‘Em algum lugar que eu não tenha ido há muito tempo!‘ ela disse.
Então eu sugeri a cozinha.
Nós sempre andamos de mãos dadas. Se eu soltar, ela vai às compras.
Ela tem um liquidificador elétrico, uma torradeira elétrica, e uma máquina de fazer pão elétrica. Então ela disse: ‘Nós temos muitos aparelhos, mas não temos lugar pra sentar‘.
Daí, comprei pra ela uma cadeira elétrica.
Lembrem-se, o casamento é a causa número um para o divórcio. Estatisticamente, 100 % dos divórcios começam com o casamento.Eu me casei com a ‘Sra. Certa’. Só não sabia que o primeiro nome dela era ‘Sempre‘.
Já faz 18 meses que não falo com minha esposa. É que não gosto de interrompê-la. Mas tenho que admitir, a nossa última briga foi culpa minha.
Ela perguntou: ‘O que tem na TV?‘
E eu disse ‘Poeira’.
No começo Deus criou o mundo e descansou. Então, Ele criou o homem e descansou. Depois, criou a mulher.
Desde então, nem Deus, nem o homem, nem o Mundo tiveram mais descanso. (ahusuhsauhsasahuashashu)
Quando o nosso cortador de grama quebrou, minha mulher ficava sempre me dando a entender que eu deveria consertá-lo. Mas eu sempre acabava tendo outra coisa para cuidar antes: o caminhão, o carro, a pesca, sempre alguma coisa mais importante para mim.
Finalmente ela pensou num jeito esperto de me convencer.Certo dia, ao chegar em casa, encontrei-a sentada na grama alta, ocupada em podá-la com uma tesourinha de costura. Eu olhei em silêncio por um tempo, me emocionei bastante e depois entrei em casa.
Em alguns minutos eu voltei com uma escova de dentes e lhe entreguei.’
- Quando você terminar de cortar a grama,’ eu disse, ‘você pode também varrer a calçada.’
Depois disso não me lembro de mais nada. Os médicos dizem que eu voltarei a andar, mas mancarei pelo resto da vida.”O casamento é uma relação entre duas pessoas na qual uma está sempre certa e a outra é o marido…“
Luiz Fernando Veríssimo

domingo, 16 de novembro de 2008

O TESTE

Ele e ela atirados no sofá, cada um para um lado. Ela lendo uma revista, ele lendo um jornal.
Ela se debruça por cima dele, procurando alguma coisa na mesinha ao lado do sofá, depois enfiando a mão entre as pernas dele e o estofamento. Ele pensa que a intenção dela é outra e se entusiasma.
- Epa. Opa. É por isso que eu gosto dessas revistas femininas. São puro sexo ... cento e dezassete maneiras de atingir o orgasmo usando utensílios domésticos, incluindo o seu marido. Chuchu, esse afrodisíaco desconhecido. Você também pode ter os seios novos da Xuxa, quando ela não estiver usando... Vocês começam a ler essas revistas, se excitam e...
- Encontrei.
- Claro que encontrou. Você pensou que ele tivesse se mudado? Continua no...
- O lápis. Eu sabia que ele estava dentro do sofá.
- Lápis?
- Pra fazer este teste da revista. Vamos lá. "Você chega em casa e diz que precisa fazer uma reavaliação das suas prioridades, recuperar o seu espaço pessoal e dar tempo para o casamento, e declara que vai viajar sozinha. Ele, a) dirá que tudo bem, desde que você faça um rancho no supermercado antes de ir, b) acusará você de ter um amante e exigirá saber quem é, c) dará uma risada e diz 'boa, boa conta outra', ou d) dirá que entende você e apoia sua decisão. "Você", no caso sou eu.
- E "ele" sou eu?
- "Ele" é você.
- D.
- O quê?
- D. A resposta dele, que sou eu, é D.
- Você me entenderia e me apoiaria?
- Sem a menor dúvida.
Ela anota com o lápis, não muito convencida, e continua.
- "Ele tem um hábito que você não suporta, mas nunca mencionou. Um dia você resolve falar e pede que ele pare, senão você enlouquece. Ele a) dirá que você tem vários hábitos que também o deixam maluco e só pára se voce parar, b) dirá que devemos aceitar as pessoas com elas são, com todas as suas imperfeições, e que você está sendo insensível e intolerante, c) dirá que fará o possível para parar, pois a sua aprovação é a coisa que ele mais preza, ou d) negará que tenha o hábito e dirá que você só está atrás de um motivo para criticá-lo".
- C.
- C?
- Ele disse C.
- Se eu pedisse para você abandonar um hábito que me incomodasse...
- Eu pararia na hora.
- Mesmo?
- Mesmo.
Ela anota e recomeça a leitura.
- "Você..."
- Espera um pouquinho. Esse teste não é pra mim. É pra você. É para a mulher responder o que espera do marido. Que tipo de homem ela pensa que ele é. No final, dependendo das respostas, a revista diz "Separe-se desse monstro imediatamente!" Ninguém quer saber as nossas respostas. Desprezam a nossa auto-avaliação...
- Não é bem assim...
- É, sim. É por isso que eu não gosto de revistas femininas. Não têm o menor interesse em homem, a não ser como objecto sexual. São feitas por mulheres para mulheres. E o que é que mulher gosta mais de ler, ouvir e ver? Outras mulheres.
Alguém já viu um homem na capa de uma revista feminina? Nunca. É tudo narcisismo. Delas para elas até os testes.
Ela atira a revista e o lápis longe.
- Pronto. Acabou o teste.
Ela o abraça.
- Ficou bravinho, ficou?
- Sentido.
Ela o beija. Ele se deixa beijar. Ela o beija com mais ardor. Ele enfia a mão entre as pernas dela. Ela faz "Mmmmm. É assim que eu gosto". Ele diz:
- Encontrei.
- O quê?
- O controle remoto.
E liga a televisão.
Luís Fernando Veríssimo
Expresso, 14.04.2006

domingo, 12 de outubro de 2008

FÁBULA POLITICAMENTE INCORRECTA

Era uma vez... numa terra muito distante...uma princesa linda, independente e cheia de auto-estima.
Ela se deparou com uma rã enquanto contemplava a natureza e pensava em como o maravilhoso lago do seu castelo era relaxante e ecológico...
Então, a rã pulou para o seu colo e disse:
- Linda princesa, eu já fui um príncipe muito bonito.
Uma bruxa má lançou-me um encanto e transformei-me nesta rã asquerosa.
Um beijo teu, no entanto, há de me transformar de novo num belo príncipe e poderemos casar e constituir lar feliz no teu lindo castelo.
A tua mãe poderia vir morar connosco e tu poderias preparar o meu jantar, lavar as minhas roupas, criar os nossos filhos e seríamos felizes para sempre...
Naquela noite, enquanto saboreava pernas de rã sautée, acompanhadas de um cremoso molho acebolado e de um finíssimo vinho branco, a princesa sorria, pensando consigo mesma:
- Eu, hein?... nem morta!
Luis Fernando Veríssimo

domingo, 3 de agosto de 2008

PENSE NA CHINA

Sugestão para um dia em que você não tiver nada com o que se preocupar e estiver até convencido que o mundo pode melhorar, deve melhorar, tem de melhorar. Finja que é agora. Simule optimismo. Imite alguém acreditando no futuro com toda a força. Faça cara de quem não tem dúvidas de que tudo vai dar certo. Convença-se que tudo vai dar certo. Pronto? Agora pense na China.
Desanimou, certo? É impossível pensar na China e continuar, mesmo em fingimento, despreocupado. Dentro de muito pouco tempo vai acontecer o seguinte: a China vai tornar o resto do mundo surpéfluo. Não vai ser preciso existir mais ninguém, de tanto que vai existir a China. O nosso destino é, enquanto a China cresce, irmos ficando cada vez mais desnecessários. Em o quê? Vinte anos? A China terá o maior parque industrial, com a mão-de-obra mais abundante e, portanto, mais barata da Terra e produzirá de tudo para tudo. E o maior mercado consumidor da Terra será qual? O dos chineses, mesmo ganhando pouco. A China concentrará toda a actividade económica do planeta entre as suas fronteiras. A China se bastará.
Mas não pense que vamos ficar assistindo ao espectáculo da auto-suficiência chinesa da cerca, esperando alguma sobra. Antes de se tornar definitivamente auto-capaz, a China terá de garantir as fontes da sua energia. O seu inevitável choque com aquele outro sorvedouro de combustível fóssil, os Estados Unidos, pelas últimas reservas de petróleo do mundo pode literalmente nos arrasar. Sugestão para a reflexão antes de dormir esta noite, se você conseguir dormir: o petróleo do Oriente Médio escasseando, dois monstros sedentos cuja sobrevivência depende do petróleo se enfrentando - e nós no meio. Ganhará o confronto final, nuclear ou não, quem tiver mais gente. A China tem muito mais gente do que os Estados Unidos.
Enquanto isto, a Índia ... Mas chega. Reanime-se. A vida é boa, há borboletas, pudins de laranja, música boa e mulheres frescas. Eu, na verdade, não tenho com o que me preocupar mesmo. Estou a caminho da fase pré-fóssil e não estarei aqui quando tudo isto acontecer. Mas só queria avisar.
Luis Fernando Veríssimo
in "Expresso" de há 2 ou 3 anos (não guardei a data)