domingo, 14 de março de 2010

UM EXEMPLO DE CAMARADAGEM

Tchekov e Gorki não se corresponderam em vão. Mal se conheceram epistolarmente, o primeiro, escritor mais velho, experiente e disciplinado que o autor de A Mãe, não poupou a este comentários que, com didáctica franqueza, lhe ocorreram sobre a obra, então incipiente, de Alexei Maximovitch Pechkov (“Gorky”, o Amargo). E não se pense que as coisas se passavam pela rama. Tchecov lia e criticava, minuciosa e atentamente, as páginas que o outro lhe mandava. Não consta que, por seu lado, Gorky se tivesse alguma vez melindrado com as observações do seu maior-em-letras.

“Começo por lhe dizer que, na minha opinião, você não tem contenção, que é como o espectador no teatro que exprime o seu entusiasmo com tão pouca moderação que impede aos outros e a si próprio o ouvir. Esta falta de contenção faz-se sentir, sobretudo, nas descrições da natureza, que você corta com diálogos. Quando se lêm tais descrições, apetece que elas sejam mais condensadas, mais curtas, duas ou três linhas.” – Carta de 3-XII-I898

“O seu único defeito é a falta de contenção a falta de graça. A graça é quando um homem gasta o menor número possível de movimentos para uma acção precisa. Mas, no seu malbaratar de gestos, sente-se o excesso. As descrições da natureza são artísticas: você é um verdadeiro paisagista. O que se nota é uma frequente assimilação ao homem (antropomorfismo), quando o mar respira, o céu olha, a estepe se empertiga, etc. Tais assimilações tornam as descrições um pouco monótonas, por vezes melosas, por vezes confusas. O pitoresco e a eloquência nas descrições só se conseguem através da simplicidade, com frases tão simples como “o sol pôs-se”, “a noite chegou”, “a chuva começou a cair”. – Carta de 2-I-I899

“Você tem tantas palavras qualificativas que a atenção do leitor só penosamente com elas se identifirca e acaba por fatiga-se. Quando escrevo “O homem sentou-se na relva” a minha frase é fácil de compreender, porque é clara e não retém a atenção. A minha frase, pelo contrário, será difícil de compreender, e bastante pesada, se eu escrever: “Um homem corpulento, estreito de ombros e de estatura meã, de barba ruiva, sentou-se na verde relva, já muito pisada por quem por ali passara, sentou-se silenciosamente, circunvagando olhares tímidos e amedrontados”. Isto não entra logo na cabeça e a literatura deve penetrar nela imediatamente, num ápice.” – Carta de 3-ix-1899

Quando porão em prática os escritores portugueses – os eternos desavindos – uma camaradagem assim? Tudo leva a crer que ela é, mais do que nunca, urgente.
Alexandre O'Neill
In Luta, 8 Abril 1976

3 comentários:

Patti disse...

(Um dos meus eleitos, já sabes)

Brilhante!
Quem dera a tantos, um Mestre assim.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

o problema não é exactamente a falta de camaradagem entre escritores, Gi. É a abundância de gente que publica umas coisas e se julga logo escritor, porque se tiver um bom marketing por trás, começa logo a dar entrevistas em todo o lado pra promover "a coisa".

Gi disse...

Palavras do O'Neill.