domingo, 28 de fevereiro de 2010

AUTOBIOGRAFIA

Quando eu era pequena havia um mistério chamado Infância. Nunca tínhamos ouvido falar de coisas aberrantes como educação sexual, política e pedofilia. Vivíamos num mundo mágico de princesas imaginárias, príncipes encantados e animais que falavam. A pior pessoa que conhecíamos era a Bruxa da Branca de Neve. Fazíamos hospitais para as formigas onde as camas eram folhinhas de oliveira e não comíamos à  mesa com os adultos. Isto poupava-nos a conversas enfadonhas e ncompreensíveis, a milhas do nosso mundo tão outro, e deixava-nos livres para projectos essenciais, como ir ver oscilar os agriões nos regatos e fazer colares e brincos de cerejas. Baptizávamos as árvores, passeávamos de burro, fabricávamos grinaldas de flores do campo.
Fazíamos quadras ao desafio, inventávamos palavras e entoávamos melodias nunca aprendidas.

Na Infância as escolas ainda não tinham fechado. Ensinavam-nos coisas inúteis como as regras da sintaxe e da ortografia, coisas traumáticas como sujeitos, predicados e complementos directos, coisas imbecis como verbos e tabuadas. Tinham a infeliz ideia de nos ensinar a pensar e a surpreendente mania de acreditar que isso era bom.
Não batíamos na professora, levávamos-lhe flores.
E depois ainda havia infância para perceber o aroma do suco das maçãs trincadas com dentes novos, um rasto de hortelã nos aventais, a  angustia de esperar o nascer do sol sem ter a certeza de que viria (não fosse a ousadia dos pássaros só visíveis na luz indecisa da
aurora), a beleza das cantigas límpidas das camponesas, o fulgor das  papoilas. E havia a praia, o mar, as bolas de Berlim. (As bolas de  Berlim são uma espécie de ex-libris da Infância e nunca mais na vida  houve fosse o que fosse que nos soubesse tão bem).

Aos quatro anos aprendi a ler; aos seis fazia versos, aos nove ensinaram-me inglês e pude alargar o âmbito das minhas leituras infantis. Aos treze fui, interna, para o Colégio. Ali havia muitas raparigas que cheiravam a pão, escreviam cartas às escondidas, e sonhavam com os filmes que viam nas férias. Tínhamos a certeza de que  o Tyrone Power havia de vir buscar-nos, com os seus olhos morenos,  depois de nos ter visto fazer uma entrada espampanante no salão de baile onde o Fred Astaire já nos teria escolhido para seu par ideal.
Chamava-se a isto Adolescência, as formas cresciam-nos como as  necessidades do espírito, música, leitura, poesia, para mim sobretudo literatura, história universal, história de arte, descobrimentos e o Camões a contar aquilo tudo, e as professoras a dizerem, aplica-te,  menina, que vais ser escritora.
Eram aulas gloriosas, em que a espuma do mar entrava pela janela, a  música da poesia medieval ressoava nas paredes cheias de sol, ay eu  coitada, como vivo em gran cuidado, e ay flores, se sabedes novas, vai-las lavar alva, e o rio corria entre as carteiras e nele molhávamos os pés e as almas.
Além de tudo isto, que sorte, ainda havia tremas e acentos graves.
Mas também tínhamos a célebre aula de Economia Doméstica de onde saíamos com a sensação de que a mulher era uma merdinha frágil, sem vontade própria, sempre a obedecer ao marido, fraca de espírito que  não de corpo, pois, tendo passado o dia inteiro a esfregar o chão com  palha de aço, a espalhar cera, a puxar-lhe o lustro, mal ouvia a chave na porta havia de apresentar-se ao macho milagrosamente fresca, vestida de Doris Day, a mesa posta, o jantarinho rescendente, e nem  uma unha partida, nem um cabelo desalinhado, lá-lá-lá, chegaste, meu  amor, que felicidade! (A professora era uma solteirona, mais sonhadora do que nós, que sabia todas as receitas do mundo para tirar todas as  nódoas do mundo e os melhores truques para arear os tachos de cobre que ninguém tinha na vida real).
Mas o que sabíamos nós da vida real? Aos 17 anos entrei para a > Faculdade sem fazer a mínima ideia do que isso fosse. Aos 19 casei-me,  ainda completamente em branco (e não me refiro só à cor do vestido).
Só seis anos, três filhos e centenas de livros mais tarde é que  resolvi arrumar os meus valores como quem arruma um guarda-vestidos.
Isto não, isto não se usa, isto não gosto, isto sim, isto seguramente,  isto talvez. Os preconceitos foram os primeiros a desandar, assim como todos os itens que à pergunta porquê só me tinham respondido porque sim, ou, pior, porque sempre foi assim. E eu, tumba, lixo, se sempre  foi assim é altura de deixar de ser e começar a abrir caminho às  gerações futuras (ainda não sabia que entre os meus 12 netos se contariam nove mulheres).

Ouvi ontem uma jovem a dizer, a revolução  que nós fizemos nos últimos anos. Não meu amor: a revolução que NÓS  fizemos nos últimos 50 anos. Mas não interessa quem fez o quê. É  preciso é que tenha sido feito. E que seja feito. E eu fiz tudo,  quando ainda não era suposto. Quando descobri que ser livre era  acreditar em mim própria, nos meus poucos, mas bons, valores pessoais.



Depois foram as circunstâncias da vida. A alegria de mais um filho, erros, acertos, disparates, generosidades, ingenuidades, tudo muito bom para aprender alguma coisa. Tudo muito bom. Aprender é a palavra chave e dou por mal empregue o dia em que não aprendo nada. Ainda espero ter tempo de aprender muita coisa, agora que decidi que a  Bíblia é uma metáfora da vida humana e posso glosar essa descoberta  até, praticamente, ao infinito.
Pois é. Eu achava, pobre de mim, que era poetisa. Ainda não sabia que estava só a tirar apontamentos para o que havia de fazer mais tarde. A  ganhar intimidade, cumplicidade com as palavras. Também escrevia  crónicas e contos e recados à mulher-a-dias. E de repente, aos 63  anos, renasci. Cresceu-me uma alma de romancista e vá de escrever dez romances em 12 anos, mais um livro de contos (Os Linhos da Avó) e sete ou oito livros infantis. (Esta não é a minha área, mas não sei porquê,  pedem-me livros infantis. Ainda não escrevi nenhum que me procurasse  como acontece com os romances para adultos, que vêm de noite ou quando ou no comboio e se me insinuam nos interstícios do cérebro, e me atiram para outra dimensão e me fazem sorrir por dentro o tempo todo e me tornam mais disponível, mais alegre, mais nova).
Isto da idade também tem a sua graça. Por fora, realmente, nota-se muito. Mas eu pouco olho para o espelho e esqueço-me dessa história da  imagem. Quando estou em processo criativo sinto-me bonita. É como se tivesse luzinhas na cabeça. Há 45 anos, com aquela soberba muito feminina, costumava dizer que o meu espelho eram os olhos dos homens.
Agora são os olhos dos meus leitores, sem distinção de sexo, raça,  idade ou religião. É um progresso enorme.
Se isto fosse uma autobiografia teria que dizer que, perto dos 30, comecei a dizer poesia na televisão e pelos 40 e tais pus-me a fazer  umas maluqueiras em novelas, séries, etc. Também escrevi algumas  destas coisas e daqui senti-me tentada a escrever para o palco, que é uma das coisas mais consoladoras que existem (outra pessoa diria gratificantes, mas eu, não sei porquê, embirro com essa palavra). Não há nada mais bonito do que ver as nossas palavras ganharem vida, e sangue, e alma, pela voz e pelo corpo e pela inteligência dos actores.
Adoro actores. Mas não me atrevo a fazer teatro porque não aprendi.
Que mais? Ah, as cantigas. Já escrevi mais de mil e 500 e é uma das  coisas mais divertidas que me aconteceu. Ouvir a música e perceber o  que é que lá vem escrito, porque a melodia, como o vento, tem uma alma  e é preciso descobrir o que ela esconde. Depois é uma lotaria. Ou me cantam maravilhosamente bem ou tristemente mal. Mas há que arriscar e, no fundo, é só uma cantiga. Irrelevante.
Se isto fosse uma autobiografia teria muitas outras coisas para  contar. Mas não conto. Primeiro, porque não quero. Segundo, porque só  me dão este espaço que, para 75 anos de vida, convenhamos, não é  excessivo.
Encontramo-nos no meu próximo romance.
Rosa Lobato de Faria in "JL"

6 comentários:

AVOGI disse...

Esta mulher é linda de nome e de textos. Adoro a Rosa e os seus escritos e este talvez por me situar tanto na infância como na profissão (prof) sabe-me bem ler.

Kok disse...

Não pode!
Uma pessoa assim não pode morrer.
E não morre enquanto for lembrada, todos os dias (quase) a todas as horas.
Felizmente que deixou as palavras, tantas palavras, que nunca serão todas consumidas.
Porque continua viva, é sempre possível vê-la.
Eu acho assim...

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Não sendo um grande fã da Rosinha, senti a sua partida como mais uma perda para o cada vez mais fraco panorama litrário português.

Gi disse...

CBO: Acho que os livros da Rosa são uns livros muito femininos. :)

paulofski disse...

A Rosinha é um espectáculo.

Rita C disse...

Ainda não tinha lido estas palavras... e que palavras... quem me dera um dia escrever assim... Adorei teres posto este texto aqui.

Beijos

Rita