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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

POEMA MAIS OU MENOS DE AMOR


 Eu queria, senhora,
ser o seu armário
e guardar seus tesouros
...
como um corsário.
Que coisa louca:
ser seu guarda-roupa!
Alguma coisa sólida,
circunspecta e pesada
nessa sua vida tão estabanada.
Um amigo de lei
(de que madeira eu não sei).
Um sentinela do seu leito
— com todo o respeito.
Ah, ter gavetinhas
para suas argolinhas.
Ter um vão
para o seu camisolão
e sentir o seu cheiro,
senhora,
o dia inteiro.
Meus nichos
como bichos
engoliriam suas meias-calças,
seus sutiãs sem alças.
E tirariam nacos
dos seus casacos
Ah, ter no colo,
como gatos,
os seus sapatos.
E no meu chão,
como trufas,
suas pantufas...
Suas echarpes, seus jeans,
seus longos e afins.
Seus trastes
e contrastes.
Aquele vestido com asa
e aquele de andar em casa.
Um turbante antigo.
Um pulôver amigo.
Bonecas de pano.
Um brinco cigano.
Um chapéu de aba larga.
Um isqueiro sem carga.
Suéteres de lã
e um estranho astracã.
Ah, vê-la se vendo
no meu espelho, correndo.
Puxando, sem dores,
os meus puxadores.
Mexendo com o meu interior
— à procura de um pregador.
Desarrumando o meu ser
por um prêt-à-porter...
Ser o seu segredo,
senhora,
e o seu medo.
E sufocar,
com agravantes,
todos os seus amantes
LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO

domingo, 3 de maio de 2009

MÃE

[...]

A origem da palavra, aparentemente, é uma só. Em latim 'mãe' é mater, em grego, é meter, em alemão mutter, em inglês mother, em sânscrito ma ou mata, e tudo deve ter começado por um dos sons fundamentais da espécie, que é o do bébé pedindo para mamar. A razão da identificação universal do som 'm' com a mãe a mama da mãe é um daqueles segredos que só os recém-nascidos poderiam revelar, mas eles não falam. Ou falam mas a gente não entende.


Somos 'mamíferos' por um determinismo fónico, e quer você seja irlandês (mathai) ou russo (mat) chamava sua mãe ou pedia o seu peito da mesma maneira, ou quase.


Do latim mater veio, além de 'mãe', 'madre', 'mére' e a sequência 'matriz', 'matrimónio' e 'maternidade', ou, de uns tempos para cá, 'maternidade' e depois 'matrimónio'. Do grego meter veio, entre muitas outras coisas 'metrópole' (cidade-mãe) e 'metropolitano'. Da próxima vez que estiver dentro de um metro, portanto, você pode comparar esta experiência com a de estar dentro da sua mãe e concluir que dentro da mãe estava mais confortável mas não podia descer onde quisesse.


Mater também é a origem de 'matéria', coisa sólida. O tronco do qual nós somos os ramos, a madeira da nossa árvore genealógica. Você que adora ambientes forrados com madeira, que os acha aconchegantes e até maternais, só diz isso porque a madeira não é a sua mãe.


'Matriz' é uma forma, um molde -como o ventre materno. Matrix, em latim, era uma fêmea reprodutora, e até hoje se usa 'matriz' neste sentido na pecuária. 'Matriz' também é a mãe das igrejas. Nos tempos da Igreja Católica, a Mater Ecclesia, a parte central se chama 'nave', que pode vir do grego naus ou do latim navis, já que uma das conõtações simbólicas da Igreja é a barca das almas, a arca da salvação, mas também pode ser do sânscrito nabbhis, de onde vem o inglês navel ou o popular 'umbigo'. De qualquer maneira, tem mãe no meio.


Viva elas, portanto. Se não fossem elas, não estaríamos aqui. Pois não há um entre nós que não seja um pequeno, um médio, um grande ou grandessíssimo filho da mãe.

mãe é mãe :)