sexta-feira, 2 de julho de 2010

VERANEIOS


Verão é a estação do ano por excelência; sinto-me bem com o calor, com o corpo quase desnudo, com o cheiro que se desprende da terra ao ser beijada pela brisa marítima.
Gosto de ver as pessoas com um ar mais feliz, mais leves, mais disponíveis a relacionamentos mesmo que estes se limitem ao tempo de espraiamento numa esplanada, entre uma cerveja gelada e uma prato de caracóis.
No Verão as pessoas despem as capas escuras com que os seus sentimentos se cobriram no longo Inverno, vestem-nos com bikinis e calções de cores garridas e partem à aventura.
Ir à Missa, confessar pecados, é deixado para os meses mais recolhidos, mais íntimos e em que, falhando todas as outras companhias, elas próprias em momentos de retiro procuram a companhia de Deus e dos Anjos para as ajudarem a atravessar o longo deserto em que o frio, o vento e a chuva regressam tanto à paisagem exterior como interior.
No Verão soltamos as amarras impostas pelo Inverno e voamos para destinos que nos piscaram os olhos em sonhos. Aproximamo-nos, quase inexoravelmente, do mar, numa atitude saudável de despojamento.
No Verão não precisamos de quatro paredes e um telhado para nos sentirmos em casa. As estrelas podem ser o nosso tecto, a areia a nossa cama, o mar, banheira e mesa, e as árvores o complemento que precisamos como placa giratória para a recuperação de energias que nos levará a reiniciar outro ciclo de vida mais introspectiva.
O Verão, pelo fogo do seu pôr-do-sol, pela lufada de ar fresco em casamento de gaivotas para que somos convidados, é por si só um espectáculo feérico completamente real; tudo é encantamento, fantasia, nada é impossível ; o sonho e a realidade dão as mãos, abraçam-se, beijam-se, dormem juntos, sem insónias, tornando a vida mais fácil de ser vivida num Shangri-La porque o mal-estar foi banido, posto para trás das costas numa mochila rota e gasta por outras estações e, por isso mesmo, a ser colocada na ilha de reciclagem da nossa alma bem ao lado do caixote do lixo onde despejamos tudo aquilo que não pode ser reciclado, mas pode ser despejado para sempre das nossas vidas, deixando-as espaçosas e disponíveis para a alegria, a esperança em dias melhores e com a certeza de que tudo o que deitámos no lixo, convictos de que não precisávamos, aquilo que reciclámos e que reentrou na nossa vida com novo ar, servirá para tornar o Outono e Inverno que se avizinham mais atraentes, mais impolutos e menos medonhos; as crises irão ser enfrentadas por pessoas cheias de sol em majestosos iates e sulcando os obstáculos que se avizinham como se de um mar calmo de Verão se tratasse, dando a volta ao Adamastor, abraçando-o , rebaptizando-o Cabo da Boa Esperança, deixando-o sem palavras vergado à intrepidez dos marinheiros que lhe fazem frente, que puxam as orelhas às tormentas e as transformam em ferramentas com que se arranjará o futuro, limando-lhe as arestas, juntando-lhe tijolos, reforçando-lhe os contrafortes, como uma lareira acesa que precisa de ser sempre vigiada para que o lume se mantenha aceso, a chama vigorosa, num prolongamento do Verão, ou antes, para que cá dentro de nós seja sempre Verão, mesmo que um vendaval se degladie lá fora tentando, em vão, arrastar-nos em turbilhão para o frio da estepe; cá dentro o sol brilha, a lua está cheia, e grávida de esperança dá a boa nova ao Verão com um vestido de prata e este, de felicidade, resolve ser, estar, permanecer, para sempre, comigo, contigo, aqui e agora, eternamente.
Será, doravante, sempre Verão.
Não é por acaso que nos países mais quentes, também considerados os mais pobres, os nativos são mais alegres, mais genuínos; recebem as agruras como mais um obstáculo a ser suplantado para continuarem.
Raramente há suicídios, o espírito de grupo domina, a sensação suprema de que nunca estão sós faz deles, em oposição aos povos do Norte, onde o Inverno é rigoroso, uns povos ricos em relações humanas, em música, em dança.
A Natureza é uma bênção para eles; olham-na com respeito, não tentam subjugá-la, muito menos trapaceá-la. E ela, aparentemente, madrasta, consideram-na os povos ditos desenvolvidos, pisca-lhes o olho com amizade.

6 comentários:

Si disse...

Este foi um dos tais sonhos geniais, não foi, Gi?
Venham mais, por favor!

Rita C disse...

Gi... faz tempo que não via este blogue com um texto tão mas tão lindo... fez-me lembrar os textos e a forma como aprendi a escrever nos cursos de escrita criativa... adorei mesmo, adorei simplesmente este texto.

Obrigado.

Beijinhos

Rita

Gi disse...

Foi mesmo um trabalho que me deram em Escrita Criativa, só hoje me lembrei dele.

paulofski disse...

Sinto-me tentado, a uma cervejinha gelada, ao calor do Verão, à tua criatividade.

Bom fim-de-semana

Patti disse...

É a energia do sol, sim senhora!
Tem poderes curativos e a prova disso são os povos do hemisfério sul, como tão bem falas.
Mas apesar de tudo, não é o sol que resolve os problemas do Outono ou do Inverno, esses estão na cabeça das pessoas, e são elas que os têm de resolver, não o clima.
Mas que o bom tempo ajuda, lá nisso concordo.

Filoxera disse...

"Será, doravante, sempre Verão"- boa ideia. Mas tem de partir de nós. Não é fácil, mas vale a pena esforçarmo-nos por isso.
Um beijo.