quinta-feira, 29 de outubro de 2009

CRÓNICA DO TEMPO QUE MATA


Nasceu de tempo incerto quando uma rajada de metralhadora esventrou o corpo de sua mãe.
Cuspido num estertor  ali ficou soltando vagidos para a terra ocre que o olhava desolada.
Uma gata que tinha perdido as suas crias encontrou-o. Pegou-o pelo cachaço. Levou-o.
Assim cresceu entre vagidos e miados naquela terra já de ninguém, devastada por anos e anos de guerra.
Nasceu e a guerra morreu ali; tinha sido o último ser humano a ver a luz do dia por aquelas bandas. Precoce no tempo. Mas fora dele. Enquanto todos os outros pereciam.
Confundiu-se com a paisagem. Cresceu esquelético, cadavérico de face, vestindo andrajos espalhados pelos ramos desgrenhados das árvores (que morreram de pé) e pelos jazentes pedregulhos na terra.
Alimentava-se de carne putrefacta e raízes secas e defumadas.
Quando uma equipa da AMI o encontrou naquele holocáustico cenário realizou que a morte no final tinha corpo. Tinha alma.
Alto, longilíneo, de grandes olhos cavos e dentes amarelos, braços abertos, compridos, em riste, dedos em forquilha, dirigia-se decididamente para eles.
Longos cãs emolduravam o rosto. De fiapos negros vestido, assemelhava-se a um abutre.
Atirou-se aos membros da equipa com olhar guloso.  Foi este olhar que os salvou a todos. O olhar de espanto com a paixão sentida que aqueceu todo o seu ser, anteriormente, gelado. Estacou.
Os antropologistas determinaram que não teria mais de 18 anos e era o único sobrevivente da guerra que tinha assolado aquela região perdida para o Mundo.
Chamaram-lhe Kalashnikov e traçaram-lhe uma história.
Escrito numa paragem de autocarro em 15.06.2009 ... enquanto matava o tempo.

5 comentários:

Flip disse...

enquanto matavas o tempo? Gi, que filme viste ontem antes de adormeceres? :-))) mas olha que acho que já vi este filme...o autocarro era o 31? :-)
tás com a imaGInação aceleradíssima, e gostei :-)

Si disse...

Gosto desta escrita.
Abrupta e crua, como só certos temas podem ser escritos.
Com adjectivos fortes a despoletar emoções muito para lá do simples sorriso ou da inevitável gargalhada que define o tom habitual deste blog.
É o outro lado da Gi. A que sente coisas que muitos optam por ignorar.

Filoxera disse...

Que bela surpresa, Gi!
Parabéns. Este post está tão belo quanto humano.
Um beijo, linda.

Patti disse...

Estas coisas do Eu que interroga o Tu...E tudo acaba bem, pois os olhos são o espelho da alma e há ainda que esteja atento aos seus olhares.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Gosto destes seus registos, Gi.Como diz a Si, a crueza das palavras despoleta emoções fortes.