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quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

CALENDÁRIO DO ADVENTO *25*


OS PASTORES
Gomes Leal

Guardavam certos pastores
seus rebanhos, ao relento,
sobre os céus consoladores
pondo a vista e o pensamento.

Quando viram que descia,
cheio de glória fulgente,
um anjo do céu do Oriente,
que era mais claro que o dia.

Jamais os cegara assim
luz do meio-dia ou manhã.
Dir-se-ia o audaz Serafim,
que um dia venceu Satã.

Cheios de assombro e terror,
rolaram na erva rasteira.
– Mas ele, com voz fagueira,
lhes diz, com suave amor:

«Erguei-vos, simples, daí,
humildes peitos da aldeia!
Nasceu o vosso Rabi,
que é Cristo – na Galileia!

Num berço, o filho real,
não o vereis reclinado.
Vê-lo-eis pobre e enfaixado,
sobre as palhas de um curral!

Segui dos astros a esteira.
Levai pombas, ramos, palmas,
ao que traz uma joeira
das estrelas e das almas!»

Foi-se o anjo: e nas neblinas,
então celestes legiões
soltam místicas canções,
sobre violas divinas.

Erguem-se, enfim, os pastores
e vão caminhos dalém,
com palmas, rolas, e flores,
cordeiros, até Belém.

E exclamavam indo a andar:
– «Vamos ver o vinhateiro!
Ver o que sabe lavrar
nas nuvens, ver o Ceifeiro!

Vamos beijar os pés nus
do que semeia nos céus.
Ver esse pastor que é Deus
– e traz cajado de luz!»

Chegando ao presépio, enfim,
caem, de rojo, os pastores,
vendo o herdeiro d’Eloim
que veste os lírios e as flores.

Dão-lhe pombas gloriosas,
meigos, tenros animais.
– Mas, vendo coisas radiosas,
casos vindouros, fatais…

Abria o deus das crianças
uns olhos profundos, graves,
no meio das pombas mansas
– nas palpitações das aves.

*Todas as fotos do Calendário do Advento foram tiradas, por mim, na Rua Augusta, em Lisboa.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

CALENDÁRIO DO ADVENTO *24*



JANEIRAS
Vitorino Nemésio

Ó de casa, alta nobreza,
Mandai-nos abrir a porta,
Ponde a toalha na mesa
Com caldo quente da horta!

Teni, ferrinhos de prata,
Ao toque desta sanfona!
Trazemos ovos de prata
Fresquinhos, prá vossa dona.

Senhora dona de casa,
À ilharga do seu Joaquim,
Vermelha como uma brasa
E alva como um jasmim!

Vimos honrar a Jesus
Numas palhinhas deitado:
O candeio está sem luz
Numa arribana de gado.

Mas uma estrela dianteira
Arde no céu, que regala!
A palha ficou trigueira,
Os pastorinhos sem fala.

Dá-lhe calorzinho a vaca,
O carvoeiro uma murra,
A velha o que traz na saca,
Seus olho mansos a burra.

Já as janeiras vieram,
Os Reis estão a chegar,
Os anos amadurecem:
Estamos para durar!

Já lá vem Dom Melchior
Sentado no seu camelo
Cantar as loas de cor
Ao cair do caramelo.

O incenso, mirra e oiro,
Que cheirais e luzis tanto,
Não valeis aquele tesoiro
Do nosso Menino santo!

Abride a porta ao peregrino,
Que vem de num longe, à neve,
De ver nascer o Menino
Nas palhinhas do preseve.

Acabou-se esta cantiga,
Vamos agora à chacota:
Já enchemos a barriga,
Sigamos nossa derrota!

Rico vinho, santa broa
Calça o fraco, veste os nus!
Voltaremos a Lisboa
Pró ano, querendo Jesus.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

CALENDÁRIO DO ADVENTO *23*



Natal
Carlos Drummond de Andrade

Menino, peço-te a graça
de não fazer mais poema
de Natal.
Uns dois ou três, inda passa...
Industrializar o tema,
eis o mal.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

CALENDÁRIO DO ADVENTO *22*



PRECE DO NATAL
Carlos Queirós

Menino Jesus
De novo nascido,
Baixai o sentido
Para a nossa cruz!

Vede que os humanos
Erros e cuidados
Nos são tão pesados
Como há dois mil anos.

A nossa ignorância
É um fardo que arde.
Como se faz tarde
Para a nossa ânsia!

Nós somos da Terra,
Coisa fria e dura.
Olhai a amargura
Que esse olhar encerra.

Colai o ouvido
À alma que sofre;
Abri esse cofre
Do sonho escondido.

Pegai nessa mão
Que treme de medo;
Sondai o segredo
Da minha oração.

Esta pobre gente
Que mal é que fez?
Nós somos, talvez,
Um povo «inocente»…

Menino Jesus
Que andais distraído
Baixai o sentido
Para a nossa cruz!

A mais insofrida
De tantas misérias
– Não termos mais férias
Ao longo da vida –

Trocai por amenas
Manhãs sem cuidados,
Silêncios banhados
De ideias serenas;

Por cantos e flores
Risonhas imagens
Macias paisagens
Felizes amores!


domingo, 21 de dezembro de 2008

CALENDÁRIO DO ADVENTO *21*


PRESENTINHO DE NATAL
Matilde Rosa Araújo


Eu queria ter um cestinho cheio de flores
Para tecer um xaile de muita cor, muito lindo!
E um retalhinho do Céu
Para fazer um vestido azul tão lindo!
E mais sete estrelas das mais brilhantes
Para armar um chapeuzinho de luz!
E mais ainda dois quartinhos de lua
Que chegassem para uns sapatos de saltos muito altos...
E tudo isto, depois,
Eu dava a minha Mãe,
Neste dia de Natal:
O xailezinho de muita cor,
Os sapatinhos de saltos muito altos...
Minha Mãe! minha Mãe!
E hoje é dia de Natal
E só posso dizer:
Minha Mãe! minha Mãe!

sábado, 20 de dezembro de 2008

CALENDÁRIO DO ADVENTO *20*



NOITE DE NATAL
(Popular Trás-Os-Montes)
Noite de Natal chego à porta e bato
Vou meter prendinhas, no vosso sapato
Pus o sapatinho, junto à chaminé
E o pai natal deu-me um chimpanzé
mas para alegrar o meu caracol
O pai natal deu-me um guarda-sol
Zangou-se comigo, levou-se da breca
Puxou-me os cabelos e eu fiquei careca.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

CALENDÁRIO DO ADVENTO *19*

FALAVAM-ME DE AMOR
Natália Correia

Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,

menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

CALENDÁRIO DO ADVENTO *18*


NATAL E SOLIDARIEDADE
João Pedro Lobo, 9º B (2003) – EB 2/3 António Dias Simões - Ovar

Natal
Rima com
Postal,
Lindo castiçal,
Copo de Cristal.

Em casa recente
Um cheiro a pinhal.
Lá fora,
Noite de vendaval.

A mãe de avental,
Sorrisos, canções,
Recital,
Talvez…

Natal
Também rima com
Doentes,
Hospital

Com o mal
Dos sem-abrigo
E dos que estão
Detidos

Por delito criminal
Mas o que eu gostava
Era bom que Natal
Rimasse sempre
Com SOLIDARIEDADE!

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

CALENDÁRIO DO ADVENTO *17*

PAI NATAL
Xanana Gusmão

Pai Natal, vem, por favor!
Traz zincos p'rás escolas,
Traz giz, traz quadros,
Cadernos, lápis e livros!
Traz carteiras e armários,
E professores e alegria!

Pai Natal, vem, por favor!
Traz a chuva e verdura,
E frutas, milho e arroz
Nos campos dos nossos pais!
Harmonia entre os adultos,
P'ra nós, a certeza da paz.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

CALENDÁRIO DO ADVENTO *16*


NATAL
Yvette Centeno

O chefe de família limpou a boca ao guardanapo e afirmou assim
como dois e dois são quatro e não são outra coisa
O Natal é o Natal e não é outra coisa antes pelo contrário
E para provar o que dizia comeu uma asa de peru
com recheio de castanhas
e limpou os dedos gordurosos ao bordado da toalha
À volta da mesa metade da família discutia a mensagem
e comia
e a outra metade mais intelectual comia a mensagem
e discutia
sim tal não tal
sim tal não tal
não tal
não tal
Natal

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

CALENDÁRIO DO ADVENTO *15*


NATAL!NATAL!
Cândido Guerreiro

Dezembro. Noite de luar. Cai neve
Toda a paisagem bárbara, o caminho,
A penedia e o vale ermo e sozinho. Embranqueceu,
transfigurou-se em breve...

E a chuva fina e alvíssima de arminho,
Trémula e aérea florescência, deve
Cair da própria lua, tão de leve,
Tão láctea e fria cai, tão de mansinho...

A neve cai... Silêncio... A natureza
tem a brancura ascética dum monge,
Numa espiritual, ingénua reza…

Calou-se a voz sinistra dos barrancos...
A neve cai… Silêncio... Ao alto e ao longe,
Palpitam, esfolhados, lírios brancos…

domingo, 14 de dezembro de 2008

CALENDÁRIO DO ADVENTO *14*


Natal
Guerra Junqueiro

Sobre a palha loura
Dorme, a rir, Jesus:
Tudo a rir se doura
De inocente luz.

Há no olhar etéreo
Do boizinho lento
Sonhos de mistério
Num deslumbramento…

Chegam pegureiros:
Chegam-se ao redor,
Tal e qual cordeiros
Para o seu pastor.

Anhos que vêm vindo
Põem-se a meditar:
Que zagal tão lindo
Para nos guiar!

Ajoelham magos,
— Êxtase profundo!…
Com os olhos vagos
No Senhor do Mundo…

E a banhada em pranto
Mãe se transfigura,
Por divino encanto,
Numa Virgem pura.

sábado, 13 de dezembro de 2008

CALENDÁRIO DO ADVENTO *13*



Natal
António Rebordão Navarro

Há um sapato pequeno para encher de brinquedos:
um sapatinho azul
com uma história antiga.

Há uma espera no olhar
da criança que espera
A sonhar cavaleiros e canções.

E os meus braços caem abertos
paralelos à vida.
(As arcas da Índia
de sândalo e pérolas
ignoram a chama de um sapato frio)
A noite envelheceu.
O sapatinho azul
(história antiga)
Vazio de brinquedos
Cansado de sonhar
Adormeceu sem fé.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

CALENDÁRIO DO ADVENTO *12*


Noite de Natal
Popular
Do tronco nasceu a rama,
da rama nasceu a flor,
Da flor nasceu Maria,
De Maria o Redentor.
Entrai, pastores, entrai,
por esse portal sagrado,
vinde a ver o Deus Menino,
numas palhinhas deitado.
O Menino está dormindo,
nas palhinhas despidinho,
Os Anjos lhe estão cantando,
por amor tão pobrezinho.
Juntaram-se os três Reis Magos
Todos três em romaria
para adorar o Deus Menino
Filho da Virgem Maria.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

CALENDÁRIO DO ADVENTO *11*



PRELÚDIO DE NATAL
David Mourão-Ferreira
Tudo principiava
pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas

Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas

a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas

A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

CALENDÁRIO DO ADVENTO *10*




NATAL
Afonso Duarte

Turvou-se de penumbra o dia cedo;
Nem o sol apertou no meu beiral!
Que longas horas de Jesus! Natal…
E o cepo a arder nas cinzas do brasedo…

E o lar da casa, os corações aos dobres,
É um painel a fogo em seu costume!
Que lindos versos bíblicos, ao lume,
Plo doce Príncipe cristão dos pobres!

Fulvas figuras pra esculpir em barro:
À luz da lenha, em rubro tom bizarro,
Sou em Presépio com meus pais e irmãos

E junto às brasas, os meus olhos postos
Nesta evangélica expressão de rostos,
Ergo em graças a Deus as minhas mãos.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

CALENDÁRIO DO ADVENTO *9*


Natal Africano
Cabral do Nascimento

Não há pinheiros nem há neve,
Nada do que é convencional,
Nada daquilo que se escreve
Ou que se diz... Mas é Natal.
Que ar abafado! A chuva banha
A terra, morna e vertical.
Plantas da flora mais estranha,
Aves da fauna tropical.
Nem luz, nem cores, nem lembranças
Da hora única e imortal.
Somente o riso das crianças
Que em toda a parte é sempre igual.
Não há pastores nem ovelhas,
Nada do que é tradicional.
As orações, porém, são velhas
E a noite é Noite de Natal.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

CALENDÁRIO DO ADVENTO *8*



Confissão de Natal
David Mourão-Ferreira
Vive o teu nome no meu nome
Eu sou David mas de Jesus
Daí a sede mais a fome
da tua Luz.
Vive o teu nome no meu nome
Não por acaso ó meu Jesus
É no que a rodos mais escondo
Que vives Tu.

domingo, 7 de dezembro de 2008

CALENDÁRIO DO ADVENTO *7*



CHOVE. É DIA DE NATAL
Fernando Pessoa

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.
E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.
Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.
Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

sábado, 6 de dezembro de 2008

CALENDÁRIO DO ADVENTO *6*




NATAL
Manuel Sérgio
Enquanto a chuva
Escorrer da minha vidraça
E furar o telhado
Daquele farrapo de homem que além passa
Enquanto o pão
Não entrar com a justiça
Lado a lado
Mão a mão
Nem Jesus vem
Andar pelos caminhos onde os outros vão
Um dia
Quando for Natal
(E já não for Dezembro)
E o mundo for o espaço
Onde cabe
Um só abraço
Então
Jesus virá
E será
À flor de tudo
O redentor
Universal
(Quando o Homem quiser
Será Natal)