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terça-feira, 12 de maio de 2009

FEIRAVIAS

E ontem lá fui, ou melhor, fomos. Ela e eu. Eu e ela.
Cheguei ao local da feira lado a lado com
Carlos Vaz Marques. Ele de mochila. Eu também.
Fotografias? Claro que há fotografias! Mas hoje não me apetece descarregá-las.
Ele foi ao encontro dos livros. Eu fiquei à espera do meu encontro.
O Marquês de Pombal, ou o Ramiro Leão, conforme o destaque no animal ou na besta, mantinha-se impávido e sereno de costas para a Feira, olhando as feias carantonhas dos cartazes eleitorais, os autocarros "hop on-hop off" com avermelhados turistas, ou olhando mais ao longe o Terreiro a Passo.
Virei-me para o local da feira. Lá longe uma gigantesca bandeira nacional colocava em perspectiva um acutileirante falo.
Não sei porquê apeteceu-me um calippo ... de morango.
Estava sol. Estava bom. E o Calippo apetecia.
Estreitei a vista. Da Patti nem rasto. O Carlos Vaz Marques lá ia com a mochila às costas e acrescentado já de alguns sacos nas laterais.
Volto a olhar para o Marquês, mas ele continuava de costas.
Virei-lhes as costas. Toca o telemóvel.
- Já cheguei. Estou aqui na zona da Leya. Tu sobes e eu desço. Encontramo-nos a meio.
(Pois sim, abelha. Ainda bem que subi e encontrei-a na praça da Leya.)
E lá andamos de Leya em Leya, primeiro.
- Ó minha senhora onde posso pagar estes livros?
- Eu se fosse a si levava mais um; na compra de 4 livros oferecemos o mais barato.
Eu comprei 4. A Patti comprou 8, ufanamente colocados, os dela, num cestinho de verga. Muito gosta a Patti de feiras, credo!
A Patti deixa o seu precioso e já pesado pecúlio livresco à guarda das Meninas-Leya.
E fomos feiranear mais um loooooongo pouco.
Eu comprei mais um livro. No total foram 5.
A Patti comprou 5 vezes mais. Poderia ter subido a tabuada.
- Olhe tem este livro? Não????? Que maldade!
E comemos farturas ou não fosse a Feira do Livro uma Feira que se preze. Só não havia carrinhos de choque. Andava-se à vontade. Não por entre as árvores. Entre as árvores encontravam-se os quiosques.
Vimos a Maria João Lopo de Carvalho preparando-se para uma sessão de autógrafos.
Fiquei a olhar e juro que vi, no lugar dela, a minha amiga Patti. Em fila uma quantidade de leitores aguardava, ansiosamente, a vez de ela autografar o seu livro "Ares da minha Graça".

segunda-feira, 11 de maio de 2009

A FEIRA DO LIVRO

Leio muitos blogues dedicados a livros; eles são blogues de escritores; eles são blogues de editoras; eles são blogues de jornalistas que também são escritores, eles são blogues sobre literatura, eles são ... eles são.
Noto que a maioria deles se lêem uns aos outros.
Na sexta-feira, no seu blogue, amplamente conhecido e lido, José Saramago escreveu sobre A Feira.
E, como se ninguém lesse este blogue, alguns blogues, desses que se lêem uns aos outros, e todos eles - tenho a certeza- lendo o blogue de Saramago se apressaram a transcrever o que José Saramago escreveu no seu blogue.
Pois eu também costumava ir à Feira. Quando era adolescente. Quando não tinha que andar em multidões, que sempre me apavoraram.
Depois parei.
Os horários eram incompatíveis com a minha vida laboral, com a minha vida como mãe, restavam-me os fins-de-semana, igualmente laboriosos, sempre mãe, cada vez mais avessa a multidões.
Este ano, quero dizer-vos, também penso ir à Feira. Os horários são mais compatíveis com a dispersão de multidões. Os horários são mais aprazíveis. Parece que as "barraquinhas" da feira estão mais simpáticas, fazem-nos sala. Já tinha combinado ir hoje. Chove. Estamos indecisas. Eu, mais numa de ir, chova ou faça sol, ela mais numa de não ir caso faça chuva.
Tenho a certeza que vou. Acredito que vamos.
O meu pai era um adepto convicto, militante, mesmo. Ia muito, ia sempre. Trazia sempre livros autografados.
Um dia ofereceu este, de António Lobo Antunes, a Mr. Darcy.
A Feira do Livro é estar sentado debaixo de um guarda-sol às listras a dar autógrafos e a comer os gelados que a minha filha Isabel me vai trazendo de uma barraquinha três editoras adiante, preocupada com as atribulações de um pai suado, de repente da idade dela, a escrever dedicatórias, de língua de fora, numa aplicação escolar. Isto não é uma queixa: gosto das pessoas, gosto que me leiam, gosto sobretudo de conhecer as pessoas que me lêem e me ajudam a sentir que não lanço ao acaso do mar garrafas com mensagens corsárias que se não sabe onde vão ter, e gosto dos romances que escrevi. Tenho orgulho neles e tenho orgulho em mim por ter sido capaz de os fazer. De modo que ali estou, satisfeito e tímido, acompanhado pelo Nélson de Matos que me pastoreia com paciência, com uma placa com o meu nome e as capas em leque à minha frente, um pouco com a sensação de vender bijuterias marroquinas nos túneis do Metropolitano do Marquês ou fatos de treino fosforescentes na Feira do Relógio, que os leitores folheiam, compram, me estendem para o selo branco, e eu em lugar de lhes explicar obsequioso e seguro que os livros não desbotam nem encolhem na máquina limito-me por falta de vocação cigana a pôr a etiqueta lá dentro
(Deus sabe o que me apetece às vezes assinar Hermes ou Valentino)
e a devolvê-los com o sorriso lojista de quem garante qualidade e boa malha. Como nos saldos da Avenida de Roma acontece de tudo: é o senhor de meia-idade e olhinho alcoviteiro que abre Os Cus de Judas, o folheia com curiosidade primeiro e com desilusão depois e se afasta a desabafar para um sócio de unha guitarrista
- Bolas nem sequer traz fotografias
é o rapaz de cabelo amestrado a gel e crocodilo no mamilo, como dizia o Alexandre, que pergunta numa piscadela cúmplice
- Já agora qual é o que tem mais curtições assim cenas de cama está a perceber?
é a tia virtuosa, de sapatos tipo caixa de violino, preocupada com a educação dos sobrinhos, essas tias que se oferecem sempre para os levar a fazer chichi, que me observa com severidade apostólica
- O que devo comprar para a minha afilhada coitadinha que fez anteontem a primeira comunhão?
é o autoritário que espeta o dedo na página e ordena em voz de furriel
- Ora meta aí: para a Fernanda no seu trigésimo oitavo aniversário com os melhores votos de felicidades e agora enfie o seu apelido
é o que fica a seguir, desconfiadíssimo, o aviar da receita, inclinado para diante de mãos no bolso do rabo, e me corrige ultrajado
- Elizabeth é com th você tem alguma coisa contra as Elizabeths ou não é escritor?
Às sete da tarde levanto a tenda. O letreiro com o meu nome desaparece, desaparecem os livros e como por felicidade não moro em Loures nem na Damaia de Cima tenho tempo de celebrar com a Isabel o fim dos saldos lambendo um último gelado. Sentamo-nos na relva como um par de namorados e seguimos à distância os outros vendedores de bijuterias marroquinas ou de fatos de treino fosforescentes a autenticarem os seus produtos num afã de balconista enquanto nós dividimos os Almanaques do tio Patinhas comprados numa prateleira dedicada às leituras difíceis e cujos títulos me encantam: Psicanalise-se A Si Mesmo, como Enriquecer Sem Sair de Casa, A Vida Sexual De Adolfo Hitler, Dez Cegos Célebres, A Cura do Cancro do Útero Pelo Método Espírita. Um bêbedo ao pé de nós ressona com um motor a dois tempos sobressaltos de motorizada.
O céu enche-se de nuvens Magritte. Proponho à minha filha uma corrida até ao automóvel e o último a chegar é maricas. No carro ao lado do nosso o autoritário da Fernanda descompõe a dita: tem uma mascote no retrovisor, duas no vidro traseiro, o autocolante de uma menina de chapéu no guarda-lamas, e interrompe-se para a informar
- Aquele é o gajo que escreveu o livro.
A Fernanda, toda transparência e folhos, lança-me um rímel distraído do alto da sua opulência glandular e a Isabel que lhe apanhou a indiferença e o soslaio em pleno voo aconselha-me com pena de mim a caminho do hamburger do jantar
- Depois disso tudo eu achava melhor o pai não ser escritor
.
António Lobo Antunes in Livro de Crónicas
Tenho a certeza que nenhum blogue de literatura, nenhum blogue de editores, nenhum blogue de escritores, escreverá sobre o que eu aqui escrevo sobre a Feira do Livro.
MAS EU VOU À FEIRA, PÁ ...OU NÃO!