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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

PASSADO, PRESENTE E FUTURO

 Eu fui. Mas o que fui já me não lembra:
...Mil camadas de pó disfarçam, véus,
Estes quarenta rostos desiguais.
...
Tão marcados de tempo e macaréus.
Eu sou. Mas o que sou tão pouco é:
Rã fugida do charco, que saltou,
E no salto que deu, quanto podia,
O ar dum outro mundo a rebentou.
Falta ver, se é que falta, o que serei:
Um rosto recomposto antes do fim,
Um canto de batráquio, mesmo rouco,
Uma vida que corra assim-assim.
 
JOSÉ SARAMAGO, in "Os Poemas Possíveis"
Nascido há 89 anos (16.11.1922)
Foto de minha autoria, tirada na Praça do Comércio

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

CROSS MY HEART AND HOPE TO DIE

Hoje António Lobo Antunes irá à Grande Entrevista, de Judite de Sousa.
E eu morra aqui aborrecidinha em como as declarações de Saramago virão à baila.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

A FEIRA DO LIVRO

Leio muitos blogues dedicados a livros; eles são blogues de escritores; eles são blogues de editoras; eles são blogues de jornalistas que também são escritores, eles são blogues sobre literatura, eles são ... eles são.
Noto que a maioria deles se lêem uns aos outros.
Na sexta-feira, no seu blogue, amplamente conhecido e lido, José Saramago escreveu sobre A Feira.
E, como se ninguém lesse este blogue, alguns blogues, desses que se lêem uns aos outros, e todos eles - tenho a certeza- lendo o blogue de Saramago se apressaram a transcrever o que José Saramago escreveu no seu blogue.
Pois eu também costumava ir à Feira. Quando era adolescente. Quando não tinha que andar em multidões, que sempre me apavoraram.
Depois parei.
Os horários eram incompatíveis com a minha vida laboral, com a minha vida como mãe, restavam-me os fins-de-semana, igualmente laboriosos, sempre mãe, cada vez mais avessa a multidões.
Este ano, quero dizer-vos, também penso ir à Feira. Os horários são mais compatíveis com a dispersão de multidões. Os horários são mais aprazíveis. Parece que as "barraquinhas" da feira estão mais simpáticas, fazem-nos sala. Já tinha combinado ir hoje. Chove. Estamos indecisas. Eu, mais numa de ir, chova ou faça sol, ela mais numa de não ir caso faça chuva.
Tenho a certeza que vou. Acredito que vamos.
O meu pai era um adepto convicto, militante, mesmo. Ia muito, ia sempre. Trazia sempre livros autografados.
Um dia ofereceu este, de António Lobo Antunes, a Mr. Darcy.
A Feira do Livro é estar sentado debaixo de um guarda-sol às listras a dar autógrafos e a comer os gelados que a minha filha Isabel me vai trazendo de uma barraquinha três editoras adiante, preocupada com as atribulações de um pai suado, de repente da idade dela, a escrever dedicatórias, de língua de fora, numa aplicação escolar. Isto não é uma queixa: gosto das pessoas, gosto que me leiam, gosto sobretudo de conhecer as pessoas que me lêem e me ajudam a sentir que não lanço ao acaso do mar garrafas com mensagens corsárias que se não sabe onde vão ter, e gosto dos romances que escrevi. Tenho orgulho neles e tenho orgulho em mim por ter sido capaz de os fazer. De modo que ali estou, satisfeito e tímido, acompanhado pelo Nélson de Matos que me pastoreia com paciência, com uma placa com o meu nome e as capas em leque à minha frente, um pouco com a sensação de vender bijuterias marroquinas nos túneis do Metropolitano do Marquês ou fatos de treino fosforescentes na Feira do Relógio, que os leitores folheiam, compram, me estendem para o selo branco, e eu em lugar de lhes explicar obsequioso e seguro que os livros não desbotam nem encolhem na máquina limito-me por falta de vocação cigana a pôr a etiqueta lá dentro
(Deus sabe o que me apetece às vezes assinar Hermes ou Valentino)
e a devolvê-los com o sorriso lojista de quem garante qualidade e boa malha. Como nos saldos da Avenida de Roma acontece de tudo: é o senhor de meia-idade e olhinho alcoviteiro que abre Os Cus de Judas, o folheia com curiosidade primeiro e com desilusão depois e se afasta a desabafar para um sócio de unha guitarrista
- Bolas nem sequer traz fotografias
é o rapaz de cabelo amestrado a gel e crocodilo no mamilo, como dizia o Alexandre, que pergunta numa piscadela cúmplice
- Já agora qual é o que tem mais curtições assim cenas de cama está a perceber?
é a tia virtuosa, de sapatos tipo caixa de violino, preocupada com a educação dos sobrinhos, essas tias que se oferecem sempre para os levar a fazer chichi, que me observa com severidade apostólica
- O que devo comprar para a minha afilhada coitadinha que fez anteontem a primeira comunhão?
é o autoritário que espeta o dedo na página e ordena em voz de furriel
- Ora meta aí: para a Fernanda no seu trigésimo oitavo aniversário com os melhores votos de felicidades e agora enfie o seu apelido
é o que fica a seguir, desconfiadíssimo, o aviar da receita, inclinado para diante de mãos no bolso do rabo, e me corrige ultrajado
- Elizabeth é com th você tem alguma coisa contra as Elizabeths ou não é escritor?
Às sete da tarde levanto a tenda. O letreiro com o meu nome desaparece, desaparecem os livros e como por felicidade não moro em Loures nem na Damaia de Cima tenho tempo de celebrar com a Isabel o fim dos saldos lambendo um último gelado. Sentamo-nos na relva como um par de namorados e seguimos à distância os outros vendedores de bijuterias marroquinas ou de fatos de treino fosforescentes a autenticarem os seus produtos num afã de balconista enquanto nós dividimos os Almanaques do tio Patinhas comprados numa prateleira dedicada às leituras difíceis e cujos títulos me encantam: Psicanalise-se A Si Mesmo, como Enriquecer Sem Sair de Casa, A Vida Sexual De Adolfo Hitler, Dez Cegos Célebres, A Cura do Cancro do Útero Pelo Método Espírita. Um bêbedo ao pé de nós ressona com um motor a dois tempos sobressaltos de motorizada.
O céu enche-se de nuvens Magritte. Proponho à minha filha uma corrida até ao automóvel e o último a chegar é maricas. No carro ao lado do nosso o autoritário da Fernanda descompõe a dita: tem uma mascote no retrovisor, duas no vidro traseiro, o autocolante de uma menina de chapéu no guarda-lamas, e interrompe-se para a informar
- Aquele é o gajo que escreveu o livro.
A Fernanda, toda transparência e folhos, lança-me um rímel distraído do alto da sua opulência glandular e a Isabel que lhe apanhou a indiferença e o soslaio em pleno voo aconselha-me com pena de mim a caminho do hamburger do jantar
- Depois disso tudo eu achava melhor o pai não ser escritor
.
António Lobo Antunes in Livro de Crónicas
Tenho a certeza que nenhum blogue de literatura, nenhum blogue de editores, nenhum blogue de escritores, escreverá sobre o que eu aqui escrevo sobre a Feira do Livro.
MAS EU VOU À FEIRA, PÁ ...OU NÃO!

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008