O SENHOR Lobo Antunes vinha à Biblioteca Municipal de Oeiras.
Peguei na minha tecnologia de ponta e dei a notícia à Patti.
Ela bem montada na ponta da tecnologia dela retorquiu i-m-e-d-i-a-t-a-m-e-n-t-e: 'Bora??
Eu: 'Bora!
(Tenho cá para mim que o Arquipélago das Insónias fica em Bora Bora)
E lá borámos no dia aprazado e bem antes da hora marcada para vermos o SENHOR;
Acompanhado de Carlos Vaz Marques O SENHOR chegou atrasado [grrrrr] deitou-nos a língua de fora [o malandro] sentou-se.
Carlos Vaz Marques faz a primeira pergunta.
ALA (leia-se sem acentos apesar de eu e a Patti o chamarmos O SENHOR) disse:
O Carlos tem uma voz linda, se fosse mulher não me escapava.
[Voz linda tem o SENHOR, se não tivesse uma linda voz cá em casa também o SENHOR não me escapava]
E a conversa correu fluída (da parte séria já falou a Patti, aqui neste post).
Falou das mulheres e dos seus gestos elegantes na cozinha e nos vários trabalhos domésticos os homens não têm graça nenhuma [pois sim SENHOR o que vale é que o SENHOR é giro e engraçado e que me caiu em graça].
Escreve na cozinha [havia de ter uma mulher lá em casa e não teríamos escritor].
A sua casa foi um antigo bar de alterne;
Não tem telemóvel, multibanco, computador.
(Olha maravilhado para quem percebe dessas coisas)
Tem um telefone fixo que raramente toca.
[Toca o telemóvel da senhora ao meu lado; atrapalhação, sussuros, incómodo de Vaz Marques, Lobo Antunes impávido. Ai Patti que não desliguei o meu, mas o meu também nunca toca...]
Escreve em blocos semelhantes aos blocos de receitas que o pai tinha.
(Falou com amor do pai e comovi-me)
Depois passa o que escreve para folhas A4.
Tinha um Nissan pequeno, mas um dia -já ganhando dinheiro sonante- depois de ter estado a pintar umas paredes e ainda sujo de tinta passou por um stand e viu um carro lindo topo de gama que adorou.
Entrou e o vendedor disse: "Este carro não é para si".
Vem de lá o responsável pelo stand que reconhecendo-o e capaz de engolir o sapo do vendedor, cheio de salamaleques diz: Faço-lhe um desconto "substancial" (parecia mesmo um Secretário de Estado) se se descair de vez em quando sobre o local onde comprou o carro.
Se houvesse 2 tinha trazido, mas trouxe aquele porque o vendedor lhe disse aquilo. Tem saudades do Nissan, este é enorme, com pouca brecagem, uma banheira, por certo.
[Toque de mensagem do meu telemóvel, eu sentada em cima do casaco onde o telemóvel estava, vai de ter que desligar aquela merda, não sem antes ter visto que era a inoportuna da Margarida Rebelo Pinto -que já me tinha ligado de manhã- a escrever-me às 23H00 sobre o Cancro da Mama ... Invejosa, já te tocavas, pá!]
Disse que muitas vezes utiliza frases ouvidas no quotidiano. Que os tradutores se vêem aflitos com expressões como "Alto lá com o charuto".
[Provavelmente, no próximo livro] esta expressão -que uma das filhas ouviu numa discussão-vai ser utilizada [só para irritar os tradutores]
Dou-te um murro que dás três voltas à cueca sem tocar no elástico.**
Findo o café [virtual] com letras, deu-se a palavra aos que escutavam.
[Não fosse a Patti estar comigo e fazer uma pergunta erudita, eu teria feito uma das minhas; não disse à Patti mas ela esteve perto de ter uma apoplexia]*
[Não vos tinha ainda dito que ele tem um sorriso traquina, um olhar maroto e é giro]
[Também não vos tinha dito que ele tem tiradas de humor em que continua a falar normalmente pelo que nem temos possibilidades de rir ou estaremos a rir de nós próprios]
Depois numa fila de prioridade duvidosa passou-se aos autógrafos.
[Ficou a pensar quais eram as letras com que escrevia o meu nome, por certo]
Repetiu o meu nome.
Autografou o MEU livro e disse-me:
Obrigada, minha Senhora.
Senhora, eu? Umpfff!
Já não se fazem Lobos como os de antigamente, daqueles que diziam quando entrevistado:
- Natália Correia diz que "a poesia come-se", o que é que tem a dizer sobre isto?
- É por isso que ela é tão gorda.
* Que escritor assim da minha idade e giro como o SENHOR nos aconselha? À excepção desse belo espécimen da Literatura Contemporânea Portuguesa - José Rodrigues dos Santos (not)
** Evitou-se de ouvir esta expressão dita pela voz melodiosa da minha tertuliante companheira.
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Hoje, às 18h30, pareceremos bandos de pardais à solta as tordas, com o Tordo, porque nunca se sabe quando/quanto os autógrafos nos poderão valer em tempos de crise.