Dar a teta a uma criança
ou dar a teta a um bispo
é como entrar numa dança
onde o corpo não descansa
porque o velho não amansa
e eu mais que a teta não dispo.
E se o bispo é cardeal?
E o cardeal é regente?
Dar o peito não faz mal
dar o corpo é natural
pois quem manda em Portugal
mama na teta da gente.
Porém deitada na cama
não sou dele nem de ninguém.
Mesmo se o velho me chama
não me importo de ser ama
se quem a carne me mama
me rói os ossos também.
António Lobo Antunes
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sábado, 21 de novembro de 2009
domingo, 18 de janeiro de 2009
A UM DEUS SURDO
Ó quem me dera ter outra vez vint'anos
navegar no ignoto sem portulanos
o peito feito para os da vida enganos
era sensacional ó hermanos
quem dera o brandy com castelo
o dedo ao arrepio do pêlo
o romanticismo do desvelo
e tudo isto fingindo um grande anelo
quem dera agora uma vez mais
o rápido de Irún no cais
a solicitude quente dos pais
ai eu tirando de ouvido muitos ais
ó quem dera e outra vez viera e dera
a ruminante paciência que há na espera
o mistério lento da Primavera
o emblema desenhado pela namorada:
uma hera.
Fernando Assis Pacheco
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
DASH ... BOARD
DASH
I read of a man who stood to speak at the funeral of a friend
He referred to the dates on the tombstone from the beginning to the end
He noted that the first came the date of her birth. And spoke of the following date with tears.
But he said what mattered most of all was the dash between those years
For the dash represents all the time that she spent alive on earth
And now only those who loved her know what that little line is worth
For it matters not, how much we own. The cars... the house... the cash...
What matters is how we live and love and how we spend our dash.
So think about this long and hard are there things you'd love to change
For you never know how much time is left that can still be rearranged
If we could just slow down enough to consider what's true and real
And always try to understand the way other people feel
And be less quick to anger and show appreciation more
And love the people in our lives like we've never loved before
If we treat each other with respect and more often wear a smile
Remembering that this special dash might only last a little while
So when your eulogy is being read with your life's action to rehash
Would you be proud of the things they say. About how you spent your dash.
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
CALENDÁRIO DO ADVENTO *2*
Natal...
Fernando Pessoa
Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Stou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!
(Notícias Ilustrado, n.º 29, 30 de Dezembro de 1928)
Fernando Pessoa
Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Stou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!
(Notícias Ilustrado, n.º 29, 30 de Dezembro de 1928)
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
CALENDÁRIO DO ADVENTO *1*
A Cristo Nosso Senhor no Presépio
soneto CXXXVIII, in OBRAS DE LUÍS de CAMÕES, Lello & Irmão Ed., Porto, 1970, p. 73
Dos céus à Terra desce a mor Beleza,
Une-se à nossa carne e a faz nobre;
E, sendo a humanidade dantes pobre,
Hoje subida fica à mor riqueza
Busca o Senhor mais rico a mor pobreza;
Que, como ao mundo o seu amor descobre,
De palhas vis o corpo tenro cobre,
E por elas o mesmo céu despreza.
Como? Deus em pobreza à terra desce?
O que é mais pobre tanto lhe contenta,
Que este somente rico lhe parece.
Pobreza este Presépio representa;
Mas tanto por ser pobre já merece,
Que quanto mais o é, mais lhe contenta.
domingo, 30 de novembro de 2008
POESIA MATEMÁTICA
Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
Integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
Como aliás em qualquer
sociedade.
Millôr Fernandes
Texto extraído do livro "Tempo e Contratempo", Edições O Cruzeiro – RJ, 1954, pág. Sem número, publicado com o pseudônimo de Vão Gogo
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
Integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
Como aliás em qualquer
sociedade.
Millôr Fernandes
Texto extraído do livro "Tempo e Contratempo", Edições O Cruzeiro – RJ, 1954, pág. Sem número, publicado com o pseudônimo de Vão Gogo
domingo, 2 de novembro de 2008
A ILHA
Contaram-me de uma ilha
muito difícil de achar.
Ficava no fim do mundo.
Ficava no fim do mar.
Chamava-se Trapafulha
(os nomes que pr'aí há!)
Quem lá vivia, só queria
não ter de viver mais lá.
Não que a ilha fosse avara,
terra sem pão para dar.
Mas governava-a gente
de muito mau governar.
Havia chefes a esmo,
um nunca mais acabar.
Todos mentiam, roubavam,
chegavam mesmo a... matar.
Nos chefes todos, mandava
o Grande Chefe, o Mandão,
que tinha, dos chefes todos,
excelente opinião.
Os ilhéus andavam tristes,
cansados, sem esperança
(com excepção dos que só
sabiam pensar na pança).
E assim, por anos e anos,
tudo a ilha suportou.
'Té que um dia, catrapum!,
tudo, mas tudo, mudou.
Não se sabe como foi,
o que foi que se passou:
ouviu-se alguém a cantar
e Trapafulha... girou.
Girou, girou e girou,
devagarinho, no mar,
Parecia uma bailarina,
só lhe faltava saltar.
Girando a ilha, girava
tudo quanto nela havia:
gentes e bichos e coisas
e até as cores do meio-dia.
Logo, assustador, os chefes,
da voz mandaram saber:
que trouxessem quem a ilha
assim fazia mexer.
Uma coisa estranha houve
nisto de a ilha girar:
os ilhéus tristes ficaram
alegrinhos de espantar
e, embora a ilha rodasse,
rodasse como um pião,
eles, ao contrário dos outros,
não iam parar ao chão.
Os outros, os que na pança
não paravam de pensar,
pareciam baratas tontas,
no chão, de pernas pr'ó ar.
E aos chefes aconteceram
coisas do arco da velha:
as palavras que diziam
saíam-lhes pela orelha.
Em vão, os Guardas buscaram
a voz pela ilha toda.
Chegaram ao fim sem novas
... e a cabeça a andar à roda.
A ilha, gira que gira,
lá foi viajando pelo mar.
Parecia uma bailarina
(alguns viram-na saltar).
Os chefes e os pançudos,
fartos de tanto esperar
que a voz, enfim, se calasse
e a ilha desse em parar,
partiram pr'a terra firme
a nado (alguns, pelo ar)
chegaram os que chegaram
... não vale a pena contar.
Liberta deles, a ilha
parou logo de girar.
E os ilhéus então viram
quem tinha estado a cantar.
A voz era tão suave
e era tão bela a canção!
Logo ali a decoraram
para um caso de aflição.
Quem cantou? O que cantava?
Não sei, não posso contar.
Tudo quanto me contaram
acabei de relatar.
Raul Malaquias Marques
in "Aconteceu num Reino deste lado do Mundo"
muito difícil de achar.
Ficava no fim do mundo.
Ficava no fim do mar.
Chamava-se Trapafulha
(os nomes que pr'aí há!)
Quem lá vivia, só queria
não ter de viver mais lá.
Não que a ilha fosse avara,
terra sem pão para dar.
Mas governava-a gente
de muito mau governar.
Havia chefes a esmo,
um nunca mais acabar.
Todos mentiam, roubavam,
chegavam mesmo a... matar.
Nos chefes todos, mandava
o Grande Chefe, o Mandão,
que tinha, dos chefes todos,
excelente opinião.
Os ilhéus andavam tristes,
cansados, sem esperança
(com excepção dos que só
sabiam pensar na pança).
E assim, por anos e anos,
tudo a ilha suportou.
'Té que um dia, catrapum!,
tudo, mas tudo, mudou.
Não se sabe como foi,
o que foi que se passou:
ouviu-se alguém a cantar
e Trapafulha... girou.
Girou, girou e girou,
devagarinho, no mar,
Parecia uma bailarina,
só lhe faltava saltar.
Girando a ilha, girava
tudo quanto nela havia:
gentes e bichos e coisas
e até as cores do meio-dia.
Logo, assustador, os chefes,
da voz mandaram saber:
que trouxessem quem a ilha
assim fazia mexer.
Uma coisa estranha houve
nisto de a ilha girar:
os ilhéus tristes ficaram
alegrinhos de espantar
e, embora a ilha rodasse,
rodasse como um pião,
eles, ao contrário dos outros,
não iam parar ao chão.
Os outros, os que na pança
não paravam de pensar,
pareciam baratas tontas,
no chão, de pernas pr'ó ar.
E aos chefes aconteceram
coisas do arco da velha:
as palavras que diziam
saíam-lhes pela orelha.
Em vão, os Guardas buscaram
a voz pela ilha toda.
Chegaram ao fim sem novas
... e a cabeça a andar à roda.
A ilha, gira que gira,
lá foi viajando pelo mar.
Parecia uma bailarina
(alguns viram-na saltar).
Os chefes e os pançudos,
fartos de tanto esperar
que a voz, enfim, se calasse
e a ilha desse em parar,
partiram pr'a terra firme
a nado (alguns, pelo ar)
chegaram os que chegaram
... não vale a pena contar.
Liberta deles, a ilha
parou logo de girar.
E os ilhéus então viram
quem tinha estado a cantar.
A voz era tão suave
e era tão bela a canção!
Logo ali a decoraram
para um caso de aflição.
Quem cantou? O que cantava?
Não sei, não posso contar.
Tudo quanto me contaram
acabei de relatar.
Raul Malaquias Marques
in "Aconteceu num Reino deste lado do Mundo"
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
DE OUTUBRO
sexta-feira, 25 de julho de 2008
CONCURSO/COM CURSO
De quem se fala neste poema?
Poema da MENTE
Há um presidente que mente,
Mente de corpo e alma, completa/mente.
E mente de maneira tão pungente
Que a gente acha que ele, mente sincera/mente,
Mais que mente, sobretudo, impune/mente...
Indecente/mente.
E mente tão nacional/mente,
Que acha que mentindo história afora,
Vai nos enganar eterna/mente.
Há um presidente que mente,
Mente de corpo e alma, completa/mente.
E mente de maneira tão pungente
Que a gente acha que ele, mente sincera/mente,
Mais que mente, sobretudo, impune/mente...
Indecente/mente.
E mente tão nacional/mente,
Que acha que mentindo história afora,
Vai nos enganar eterna/mente.
Affonso Romano de Sant`Anna
Fácil, fácil.
sexta-feira, 30 de novembro de 2007
HOMENAGEM
Nos próximos tempos, é natural que eu vá tendo vontade e ou necessidade de fazer o meu luto e postando por aqui situações que me façam lembrar o meu Pai.
Quando virem o título acima seguido de um numeral ... podem passar à frente, que eu não vos levo a mal!
Hoje, vou pôr aqui em destaque 2 mensagens escritas que recebi e que, por me terem ajudado a desentupir, no recolhimento do lar o saco lacrimal esquerdo, ao mesmo tempo que ria e vertia mais umas lágrimas do saco lacrimal direito, valem a pena estar aqui em destaque.
Tenho uma prima direita, a quem chamo Mana Mimi, e que é incansável comigo :)
Como a maior parte da minha família é de expressão inglesa e ela, embora sabendo falar português, pensa em inglês, enviou-me este poema quando soube que o meu pai morreu:
Thinking of you - Here's a poem for you - dedicated to you and your Dad - for your blog- from my heart
Daughter & Father
Dear father, how my wounded soul doth weep
Dear father, how my wounded soul doth weep
Amid this fickle field of yellow roses' thorns.
Unsure am I, to walk through dangers deep
Garden of life, wherein my soul is torn.
Hindered by self, I know these thorns are mine
Though how am I to pluck them from my heart?
Even so my trembling hand, when held in thine
Reassures my soul that we shall never part
&
Fair child of mine with star-shaped eyes so bright!
&
Fair child of mine with star-shaped eyes so bright!
Afraid to live yet filled with so much life.
This father's here to soothe that inner fright.
His goal s to free your soul from undue strife.
Eternity's the time we have to share,
Reshaping lives together till we're there.
terça-feira, 21 de agosto de 2007
O GIRASSOL
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