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domingo, 22 de fevereiro de 2009

OS APAZIGUADORES

A tribo é indócil
Os apaziguadores são boas pessoas.
Eles cantam a paz
na boca das armas.
Eles desarmam as bocas
quando cantam a paz.
Só não desarmam as armas
porque a paz desarmada
passaria a ser paz
e eles ficariam desempregados
porque não há apaziguadores
em tempo de paz.
O medo tocou os apaziguadores,
o medo tocou o gatilho das armas
os indóceis ficaram apaziguados,
definitivamente apaziguados,
horizntalmente apaziguados.
E os apaziguadores voltaram aos lares
e com gestos medidos e apaziguados
guardaram as armas, lavaram as mãos
e distribuiram beijos pacificamente
a toda a família
Sidónio Muralha

domingo, 8 de fevereiro de 2009

CARTA


  1. se v.exa. me permite
    eu gostaria de dizer o que penso.


  2. em primeiro lugar penso
  3. que v.exa. anda
    no sentido oposto ao dos ponteiros do relógio.


  4. v.exa. dirá que eu estou afirmando
    que v.exa. anda para trás.



  5. na verdade, nada me impede de afirmar que
    v.exa. anda para trás.
    não foi isso porém que eu disse.



  6. com efeito, não sei
    se v. exa. anda para trás, segundo penso,
    v.exa. anda no sentido oposto ao dos ponteiros
    do relógio.


  7. seria necessário poder afirmar com toda
    a segurança que os ponteiros do relógio
    andam para a frente,
    para poder afirmar
    com igual segurança
    que v.exa. anda para trás.



  8. mas quem está em condições de
    afirmar com toda a segurança
    que os ponteiros do relógio andam
    para a frente? ninguém está
    em condições de afirmar com toda a segurança
    que os ponteiros do relógio andam
    para a frente, porque, como v.exa. sabe,
    os ponteiros do relógio andam à roda.



  9. a única coisa que se pode afirmar com toda a segurança
    é que os ponteiros do relógio andam
    à roda para um lado e v. exa.
    anda à roda para o outro. de modo que v. exa. com
    o seu movimento anula o movimento
    dos ponteiros do relógio e vice-versa.


  10. na verdade é como
    se v. exa. não andasse e como
    se os ponteiros também não andassem.


  11. com efeito, não creio que v. exa. ande para a frente
    nem que v. exa. ande para trás, não creio que v. exa.
    ande para cima nem que v. exa. ande para baixo, não creio que v. exa.
    ande para a direita nem que v. exa. ande para a esquerda,
    apenas suponho que v. exa. anda à roda de si mesmo,
    no sentido oposto ao dos ponteiros do relógio e,
    ainda,
    de olhos fechados, para não enjoar.


  12. o que eu, em duas palavras, em segundo lugar penso,
    é que v. exa. usa um instrumento de osso ou de plástico
    com uma enfiada de pontas aceradas, chamado pente,
    a fim de estar sempre bem penteado, pois nada
    perturba v. exa. que o receio de não
    estar bem penteado, nada perturba mais
    v. exa., e é por isso que só quando v. exa.
    acaba por perder o cabelo todo se começa a sentir um pouco à vontade. é, segundo suponho,
    por isso.
  13. de forma que a visão de
    v. exa. e dos restantes concidadãos
    andando todos à roda de si mesmos,
    no sentido oposto ao dos ponteiros do relógio,
    de olhos fechados e cabelos cuidadosamente penteados
    é um espectáculo alucinante,
    que v. exa. infelizmente não pode apreciar,
    por ter os olhos vendados.
  14. claro que v. exa. julga que só v. exa.
    faz o movimento que v. exa. faz, e o mesmo
    julgam os restantes concidadãos, pois
    todos se consideram uma excepção, um
    caso único, especial, e no entanto todos
    formam uma regra, no seu movimento regular,
    no seu círculo vicioso,
    à roda de si mesmos,
    no sentido oposto ao dos ponteiros do relógio,
    de olhos fechados
    e cabelos cuidadosamente penteados.
    Alberto Pimenta


quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

CALENDÁRIO DO ADVENTO *3*



NATAL CHIQUE
Vitorino Nemésio

Percorro o dia que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na minha pressa e pouco amor.

Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.

Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado…
Só esse pobre me pareceu Cristo.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

A QUEM ME PODE INTERESSAR...

Amo-te tanto, meu amor...não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Vinicius de Moraes, O Operário em Construção

sábado, 1 de dezembro de 2007

HOMENAGEM #3 - OUR FAMILY CHAIN/O NOSSO "COLAR" DE FAMÍLIA

We little knew that morning
That God would call your name.
In life we loved you dearly;
In death we do the same.
It broke our hearts to lose you,
But you did not go alone,
For part of us went with you
The day God called you home.
You left us beautiful memories,
Your love is still our guide,
And though we cannot see you,
You are always by our side.
Our family chain is broken
And nothing seems the same,
But as God calls us one by one,
The chain will link again.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

SOPA DE LETRAS - O ÚLTIMO POST DE OUTUBRO


De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.
Natália Correia, Poesia Completa

terça-feira, 30 de outubro de 2007

HOJE A MINHA SOPA DE LETRAS É COM NÚMEROS


POEMA

O primeiro verso é para começar,
O segundo é o penúltimo do fundo.
O terceiro dá terreno para avançar.
O quarto vai rimar com o segundo.

O quinto prega-nos uma partida.
O sexto abate os custos mais de um terço,
O sétimo é conversa distraída.
O oitavo seriísimo. Ou o inverso.

O nono conta o mesmo por inteiro.
O décimo é, se calha, desilusão.
O undécimo é só o décimo primeiro.
O duodécimo é de nada a conclusão.
GERRIT KOMRIJ
Contrabando - Analogia Poética


Notas-de-guardar-ao-pé
Gerrit Komrij
É um escritor, poeta e dramaturgo holandês
residente em Portugal (Oliveira do Hospital) desde 1984.
Nasceu a 30 de Março de 1944
em Winterswijk, uma pequena povoação da província de Gueldria, onde os seus pais se abrigavam dos bombardeamentos durante a Segunda Guerra Mundial.
Em 1993 recebe o prémio P.C. Hooftprijs, o principal prémio literário dos Países Baixos.
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

NO COMBOIO DESCENDENTE


que veio de Portimão
eu juro que vi Pessoa
com um mala na mão

No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada.
Uns por verem rir os outros
E outros sem ser por nada
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada...

No comboio descendente
Vinham todos à janela
Uns calados para os outros
E outros a dar-lhes trela
No comboio descendente
De Cruz Quebrada a Palmela...

No comboio descendente
Mas que grande reinação!
Uns dormindo, outros com sono,
E outros nem sim nem não
No comboio descendente
De Palmela a Portimão.

Fernando Pessoa

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

QUATRO PATAS BOM, DUAS PATAS RUIM (George Orwell)

HOJE É DIA DOS ANIMAS DE QUATRO PATAS
A VAZIA SANDÁLIA DE S.FRANCISCO
A gratidão da macieira e a amnésia do gato
nunca pautaram o curso dos meus dias.
"Fiquem onde estão!",
foi a minha ordem para a macieira e
para o gato,
ainda bem exteriores ao meu fraco por eles.
Salvei-os (e salvei-me!) de uma fábula
cuja moral necessariamente devia ser eu, o parlante
amigo de macieiras e conhecido de gatos.
Dá um certo desconforto malbaratar assim amigos
em dois reinos da natureza.
Mas também dá liberdade.
Há uma gente que desponta do outro lado do vale.
Está a correr para cá.
São os meus semelhantes.
Com eles vou desentender-me (mais que certo!),
mas a ideia que deles faço
é ainda um laço.
Repousem em paz as macieiras e os gatos.
Alexandre O'Neill (1924-1986) in "Poesias Completas"


Existem homens que se tornam animais assim que começam a ser tratados como homens

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

DIA MUNDIAL DA MÚSICA

Qualquer música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!


Qualquer música - guitarra,
Viola, harmónio, realejo…
Um canto que se desgarra…
Um sonho em que nada vejo…


Qualquer coisa que não vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida…
Que eu não sinta o coração!

Fernando Pessoa

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

DESBUNDA

Vão a Madrid e descubram!

Segundo o EL Pais a Fundação Canal de Madrid vai mostrar ao público, a partir de dia 2 de Outubro, as múltiplas possibilidades artísticas que esta parte do corpo oferece. (Não dizem é a quem).

Encaremos então este assunto como ele exige: de trás para a frente, pode ser?

São 70 retratos do corpo humano visto de trás através da lente de fotógrafos como Cartier-Bresson, Man Ray e Mapplethorpe, Joan Colom, Rafael Navarro, Ramón Masats, Isabel Muñoz, Cristina García Rodero e Carlos Pérez Siquier.
A mostra conta com fotografias tiradas desde o inicio do século XX até aos nossos dias, com uma diversidade de estilos e poses que fazem do rabo o grande
protagonista da exposição Ocultus. (Aposto que estes rabos serão do sexo feminino)

A quem for a esta exposição... se houver lá rabos no masculino (não estou a falar em sentido figurado), em exposição, avisem! Mas aposto que tal não abunda por lá!

Tudo isto serve, apenas, de pretexto para colocar aqui um poema de CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE:

A BUNDA, QUE ENGRAÇADA

A bunda, que engraçada
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.
Não lhe importa o que vai pela frente do corpo.
A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora - murmura a bunda - esses garotos ainda lhes falta muito que estudar
A bunda são duas luas gémeas em rotundo meneio.
anda por si na cadência mimosa,
no milagre de ser dois em um, plenamente.
A bunda se diverte por conta própria.
E ama.
Na cama agita-se.
Montanhas avolumam-se, descem.
Ondas batentes numa praia infinita.
Lá vai sorrindo a bunda.
Vai feliz na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre os caos.
A bunda é a bunda, redunda.

e para postar este rabo-bunda-cu. Podem fazer tiro ao alvo! É a desbunda total!

terça-feira, 28 de agosto de 2007

ENCOSTA-TE A MIM...


ENCOSTA-TE A MIM


Encosta-te a mim, nós já vivemos cem mil anos

encosta-te a mim, talvez eu esteja a exagerar

encosta-te a mim, dá cabo dos teus desenganos

não queiras ver quem eu não sou, deixa-me chegar


Chegado da guerra, fiz tudo p´ra sobreviver

em nome da terra, no fundo p´ra te merecer

recebe-me bem, não desencantes os meus passos

faz de mim o teu herói, não quero adormecer


Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo

o que não vivi, hei-de inventar contigo

sei que não sei, às vezes entender o teu olhar

mas quero-te bem, encosta-te a mim


Encosta-te a mim, desatinamos tantas vezes

vizinha de mim, deixa ser meu o teu quintal

recebe esta pomba que não está armadilhada

foi comprada, foi roubada, seja como for


Eu venho do nada porque arrasei o que não quis

em nome da estrada onde só quero ser feliz

enrosca-te a mim, vai desarmar a flor queimada

vai beijar o homem-bomba, quero adormecer


Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo

o que não vivi, um dia hei-de inventar contigo

sei que não sei, às vezes entender o teu olhar

mas quero-te bem, encosta-te a mim


Jorge Palma, Voo nocturno (2007)

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

POEMINHA DE LOUVOR AO "STRIP-TEASE"

Eu sou do tempo em que a mulher
Mostrar o tornozelo
Era um apelo!

Depois, já rapazinho, vi as primeiras pernas
De mulher
Sem saia;
Mas foi na praia!

A moda avança
A saia sobe mais
Mostra os joelhos
Infernais!

As fazendas
Com os anos
Se fazem mais leves
E surgem figurinhas
Em roupas transparentes
Pelas ruas:
Quase nuas.
E a mania do esporte
Trouxe o short.
O short amigo
Que trouxe consigo
O maiô de duas peças.

E logo, de audácia em audácia,
A natureza ganhando terreno
Sugeriu o biquíni,
O maiô de pequeno ficando mais pequeno
Não se sabendo mais
Até onde um corpo branco
Pode ficar moreno.

Deus,
A graça é imerecida,
Mas dai-me ainda
Uns aninhos de vida!

(Millôr Fernandes)

sexta-feira, 25 de maio de 2007

À ANA .... QUE PARTIU DESTE MUNDO

Alma minha gentil, que te partiste

tão cedo desta vida, descontente,

repousa lá no Céu eternamente

e viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,

memória desta vida se consente,

não te esqueça daquele amor ardente

que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te

alguma cousa a dor que me ficou

da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,

que tão cedo de cá me leve a ver-te

quão cedo de meus olhos te levou.
(Luís de Camões)

domingo, 29 de abril de 2007

HOJE É DIA MUNDIAL DA DANÇA

E esta música faz-me sempre dançar.....


Dance Me To The End Of Love

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in
Lift me like an olive branch and be my homeward dove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Oh let me see your beauty when the witnesses are gone
Let me feel you moving like they do in Babylon
Show me slowly what I only know the limits of
Dance me to the end of love

Dance me to the end of love Dance me to the wedding now,

Dance me on and on Dance me very tenderly and dance me very long
We're both of us beneath our love, we're both of us above
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Dance me to the children who are asking to be born
Dance me through the curtains that our kisses have outworn
Raise a tent of shelter now, though every thread is torn
Dance me to the end of love

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I'm gathered safely in
Touch me with your naked hand or touch me with your glove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love


Leonard Cohen